janaina leite

São Paulo - SP

Janaina Leite é atriz, diretora e dramaturgista.

ouça a entrevista:

A radicalidade da dramaturgia de Janaina Leite me parece ser consequência de dois movimentos. Ao mesmo tempo em que a artista transita entre diferentes funções na criação teatral, ela se dedica verticalmente a cada espaço que ocupa. Assim, a sua escrita é a materialização de um pensamento sobre a prática artística e sobre a vida que parece não querer perder tempo com fronteiras e dicotomias. Sendo atriz, diretora, pesquisadora e orientadora de projetos criativos, sua dramaturgia vem carregada de uma memória do corpo, da cena, do pensamento crítico e da disponibilidade para a interlocução com seus contemporâneos.

Formada pela Escola de Artes Dramáticas da USP, universidade em que cursou mestrado e doutorado, Janaina Leite é integrante do Grupo XIX de Teatro desde a sua fundação, no início dos anos 2000. Seu trabalho está circunscrito ao movimento de teatro de grupo de São Paulo, viabilizado pela Lei de Fomento ao Teatro. As peças do Grupo XIX são criadas de maneira colaborativa, encenadas em espaços não convencionais e com uma proposta literal de participação do público, um terreno fértil para o desenvolvimento de artistas com propostas autorais. Recentemente, outro integrante do mesmo grupo, Ronaldo Serruya, também tem se dedicado à investigação cênica implicada por questões éticas e estéticas do mundo e da vida, tornando-se uma voz contundente nas pesquisas de linguagem de corpos com HIV nas artes da cena.

Mais conhecida como atriz em um primeiro momento, Janaina Leite foi acumulando experiência como criadora, participando das construções dramatúrgicas do grupo e eventualmente atuando na direção, enquanto afiava as ferramentas críticas e criativas para o desenvolvimento de uma postura autoral e investigativa bastante radical. 

Nos últimos dez anos, seu trabalho parece ter virado uma chave: sem precisar renunciar às metodologias coletivas, a artista puxou o fio da escrita de si – e foi puxada por ele. Essa curva na sua trajetória não foi uma rota planejada, mas, como ela diz em um artigo recente, foi “pela pressão das marcas” que os conteúdos psíquicos pediram passagem para aparecer na sua criação. 

O primeiro sinal desta curva foi o documentário cênico Festa de separação, de 2009, no qual ela e Felipe Teixeira Pinto, o artista multimídia Fepa, expõem o processo do fim de seu relacionamento, com a direção de Luiz Fernando Marques, também diretor do XIX. Olhando retrospectivamente para o percurso de Janaina a partir de suas criações mais recentes, é possível pensar que o gesto desse casal, de dar festas para compartilhar a decisão da separação com amigos e familiares, revela uma certa artisticidade na vida cotidiana. Essa característica, ligada à noção de arte de Joseph Beuys, vai ganhar um overdrive na vida da artista.

Em 2014, estreia o solo Conversas com meu pai, uma parceria com seu então companheiro e pai dos seus filhos, Alexandre Dal Farra, também conhecido por seus trabalhos com o grupo Tablado de Arruar. Ambos assinam a direção da peça, mas Dal Farra assina o texto, apesar da fala em primeira pessoa da atriz tratar da sua própria vida, de suas recordações sobre o pai e da sombra de uma relação incestuosa.

Em 2017, Janaina publica sua dissertação de mestrado, Autoescrituras performativas – Do diário à cena, pela editora Perspectiva, que logo se torna uma referência para artistas e estudantes do teatro documentário e autobiográfico no Brasil. Enquanto isso, a artista tem orientado projetos autorais nos Núcleos de Pesquisa do Grupo XIX. Neste contexto se deram, por exemplo, as duas edições do "Feminino Abjeto", espaço laboratorial que ressoa na criação de Stabat Mater, peça que estreia em 2019, e na sua investigação de doutorado, concluída em 2021.

Em Stabat Mater, a ação disparadora da criação foi a proposta de realizar uma cena de sexo explícito com um ator pornô, dirigida por sua mãe. A artista assina texto e direção, afirmando a sua propriedade na lida com os materiais. Neste espetáculo, ela dá continuidade ao enfrentamento anterior, mas agora de outra perspectiva. Ela precisa reparar uma falha. Na lida com a figura paterna, ela não tinha se dado conta da presença da mãe. Mas a mãe estava lá, como diz o título da peça, que também aponta uma referência nuclear da dramaturgia, um ensaio da psicanalista Julia Kristeva. Ela partilha a cena com a mãe, Amália Fontes Leite, que não é atriz, e com um ator. A presença da mãe no espetáculo é um gesto dramatúrgico arriscado e consequente.

Janaina investiga a violência contra o corpo feminino ao analisar imagens de filmes de terror e de pornografia, e ao desmontar o mito da virgindade na Virgem Maria. Aqui, o que está em jogo não é a dinâmica entre o real e o ficcional, mas a coragem da verdade, a fala franca que os gregos chamavam de parresia. Na parresia, a verdade não está nas coisas ou nos fatos, mas no vínculo que existe entre quem diz e o que está sendo dito. A franqueza, no caso, pressupõe um risco. É com esta trama de gestos, presenças e pensamentos que Stabat Mater força o debate sobre o autobiográfico, o performativo e o documental na cena contemporânea para outro patamar de complexidade, convocando uma mirada crítica sobre maternidade, sexualidade, gênero, desejo e violência.

Em 2020, Janaina foi a Pesquisadora em Foco da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), na qual foram realizadas uma série de atividades reflexivas em torno do seu trabalho. A dramaturgia de Stabat Mater foi publicada junto com Conversas com meu pai pela editora Javali.

Durante a pandemia, Janaina deu início ao projeto Ensaios escopofílicos para uma história do olho, inspirada em Georges Bataille, do qual faz parte a palestra-performance on-line, Camming 101 noites. Neste trabalho, em que se mantém a parceria com Lara Duarte e Lilah Halla, da equipe de Stabat Mater, o público tem acesso à experiência da artista em uma plataforma de sexo virtual pago durante o período de isolamento social.

Com estes espetáculos, os laboratórios de pesquisa e sua produção acadêmica, Janaina Leite se dedica a uma jornada de indagação sobre um feminino em crise. Em diálogo com o teatro de Angélica Liddell, com a psicanálise e a pornografia, seu escopo de criação se desprende do real documental para o que ela vai chamar, na sua tese de doutorado, de real obsceno. Aqui, o obsceno é o que escapa à cena, o que é irrepresentável. Não é apenas ao teatro ou ao mundo da arte que a artista endereça suas questões. É sobre a vida que ela se pergunta. Sobre uma noção de verdade que não pode estar separada da vida. 

Daniele Avila Small

Janaina Leite é atriz, diretora e dramaturgista.

A radicalidade da dramaturgia de Janaina Leite me parece ser consequência de dois movimentos. Ao mesmo tempo em que a artista transita entre diferentes funções na criação teatral, ela se dedica verticalmente a cada espaço que ocupa. Assim, a sua escrita é a materialização de um pensamento sobre a prática artística e sobre a vida que parece não querer perder tempo com fronteiras e dicotomias. Sendo atriz, diretora, pesquisadora e orientadora de projetos criativos, sua dramaturgia vem carregada de uma memória do corpo, da cena, do pensamento crítico e da disponibilidade para a interlocução com seus contemporâneos.

Formada pela Escola de Artes Dramáticas da USP, universidade em que cursou mestrado e doutorado, Janaina Leite é integrante do Grupo XIX de Teatro desde a sua fundação, no início dos anos 2000. Seu trabalho está circunscrito ao movimento de teatro de grupo de São Paulo, viabilizado pela Lei de Fomento ao Teatro. As peças do Grupo XIX são criadas de maneira colaborativa, encenadas em espaços não convencionais e com uma proposta literal de participação do público, um terreno fértil para o desenvolvimento de artistas com propostas autorais. Recentemente, outro integrante do mesmo grupo, Ronaldo Serruya, também tem se dedicado à investigação cênica implicada por questões éticas e estéticas do mundo e da vida, tornando-se uma voz contundente nas pesquisas de linguagem de corpos com HIV nas artes da cena.

Mais conhecida como atriz em um primeiro momento, Janaina Leite foi acumulando experiência como criadora, participando das construções dramatúrgicas do grupo e eventualmente atuando na direção, enquanto afiava as ferramentas críticas e criativas para o desenvolvimento de uma postura autoral e investigativa bastante radical. 

Nos últimos dez anos, seu trabalho parece ter virado uma chave: sem precisar renunciar às metodologias coletivas, a artista puxou o fio da escrita de si – e foi puxada por ele. Essa curva na sua trajetória não foi uma rota planejada, mas, como ela diz em um artigo recente, foi “pela pressão das marcas” que os conteúdos psíquicos pediram passagem para aparecer na sua criação. 

O primeiro sinal desta curva foi o documentário cênico Festa de separação, de 2009, no qual ela e Felipe Teixeira Pinto, o artista multimídia Fepa, expõem o processo do fim de seu relacionamento, com a direção de Luiz Fernando Marques, também diretor do XIX. Olhando retrospectivamente para o percurso de Janaina a partir de suas criações mais recentes, é possível pensar que o gesto desse casal, de dar festas para compartilhar a decisão da separação com amigos e familiares, revela uma certa artisticidade na vida cotidiana. Essa característica, ligada à noção de arte de Joseph Beuys, vai ganhar um overdrive na vida da artista.

Em 2014, estreia o solo Conversas com meu pai, uma parceria com seu então companheiro e pai dos seus filhos, Alexandre Dal Farra, também conhecido por seus trabalhos com o grupo Tablado de Arruar. Ambos assinam a direção da peça, mas Dal Farra assina o texto, apesar da fala em primeira pessoa da atriz tratar da sua própria vida, de suas recordações sobre o pai e da sombra de uma relação incestuosa.

Em 2017, Janaina publica sua dissertação de mestrado, Autoescrituras performativas – Do diário à cena, pela editora Perspectiva, que logo se torna uma referência para artistas e estudantes do teatro documentário e autobiográfico no Brasil. Enquanto isso, a artista tem orientado projetos autorais nos Núcleos de Pesquisa do Grupo XIX. Neste contexto se deram, por exemplo, as duas edições do "Feminino Abjeto", espaço laboratorial que ressoa na criação de Stabat Mater, peça que estreia em 2019, e na sua investigação de doutorado, concluída em 2021.

Em Stabat Mater, a ação disparadora da criação foi a proposta de realizar uma cena de sexo explícito com um ator pornô, dirigida por sua mãe. A artista assina texto e direção, afirmando a sua propriedade na lida com os materiais. Neste espetáculo, ela dá continuidade ao enfrentamento anterior, mas agora de outra perspectiva. Ela precisa reparar uma falha. Na lida com a figura paterna, ela não tinha se dado conta da presença da mãe. Mas a mãe estava lá, como diz o título da peça, que também aponta uma referência nuclear da dramaturgia, um ensaio da psicanalista Julia Kristeva. Ela partilha a cena com a mãe, Amália Fontes Leite, que não é atriz, e com um ator. A presença da mãe no espetáculo é um gesto dramatúrgico arriscado e consequente.

Janaina investiga a violência contra o corpo feminino ao analisar imagens de filmes de terror e de pornografia, e ao desmontar o mito da virgindade na Virgem Maria. Aqui, o que está em jogo não é a dinâmica entre o real e o ficcional, mas a coragem da verdade, a fala franca que os gregos chamavam de parresia. Na parresia, a verdade não está nas coisas ou nos fatos, mas no vínculo que existe entre quem diz e o que está sendo dito. A franqueza, no caso, pressupõe um risco. É com esta trama de gestos, presenças e pensamentos que Stabat Mater força o debate sobre o autobiográfico, o performativo e o documental na cena contemporânea para outro patamar de complexidade, convocando uma mirada crítica sobre maternidade, sexualidade, gênero, desejo e violência.

Em 2020, Janaina foi a Pesquisadora em Foco da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), na qual foram realizadas uma série de atividades reflexivas em torno do seu trabalho. A dramaturgia de Stabat Mater foi publicada junto com Conversas com meu pai pela editora Javali.

Durante a pandemia, Janaina deu início ao projeto Ensaios escopofílicos para uma história do olho, inspirada em Georges Bataille, do qual faz parte a palestra-performance on-line, Camming 101 noites. Neste trabalho, em que se mantém a parceria com Lara Duarte e Lilah Halla, da equipe de Stabat Mater, o público tem acesso à experiência da artista em uma plataforma de sexo virtual pago durante o período de isolamento social.

Com estes espetáculos, os laboratórios de pesquisa e sua produção acadêmica, Janaina Leite se dedica a uma jornada de indagação sobre um feminino em crise. Em diálogo com o teatro de Angélica Liddell, com a psicanálise e a pornografia, seu escopo de criação se desprende do real documental para o que ela vai chamar, na sua tese de doutorado, de real obsceno. Aqui, o obsceno é o que escapa à cena, o que é irrepresentável. Não é apenas ao teatro ou ao mundo da arte que a artista endereça suas questões. É sobre a vida que ela se pergunta. Sobre uma noção de verdade que não pode estar separada da vida. 

Daniele Avila Small

Em 2012, eu fiquei grávida do meu primeiro filho, em 2014, do segundo. Eu virei mãe. E quase como em um efeito de golpe tardio – como se a minha própria maternidade fosse o contexto que faltava para eu ler o que se dera antes, muito tempo antes, séculos eu diria –, eu comecei a me perguntar onde estava, onde esteve a minha mãe, a “MÃE” em todos esses anos. Um apagamento completo, quase grosseiro, hoje eu sei, mas que eu nem sequer percebi.

E em 2017, eu encontrei um texto teórico que respondia indiretamente à minha pergunta. Um texto chamado “Stabat Mater” *, cuja tradução é justamente “estava a mãe”. Stabat Mater é também o nome de um poema ou prece do século XII que começa com as palavras “Stabat Mater dolorosa” ("estava a Mãe sofrendo"), e fala sobre o sofrimento de Maria durante o calvário de Jesus.

Apesar de teórico, é um texto bastante curioso na sua estrutura porque ele vem dividido em duas colunas, como se trouxesse a marca de uma cicatriz, de uma falha. De um lado, a TEORIA. De outro, a DOR. A coluna da teoria eu dividi, propus um percurso que vai da história de Maria, “A MÃE”, passando por uma mãe qualquer daí, eu, você, você (apontando alguém da plateia), a minha mãe (aponta a mãe em cena), até chegar aos filmes de terror e na pornografia. Pode parecer um percurso esdrúxulo, mas é o que vai justificar o cenário terminar todo desmantelado e cheio de sangue no final.

A outra coluna, a da DOR, eu não dividi. Não dá. É mais um bololô mesmo. São coisas. Pedaços de coisas. Eu vou encaixando conforme der. Talvez não dê muito. Daí vai ficar sem encaixar mesmo.

O que importa é que tudo que eu venho fazendo desde então é a tentativa de produzir algo, uma espécie de ato psicomágico – uma ação real que produza consequências simbólicas ou uma ação simbólica que produza consequências reais, mas que devolva cada uma dessas figuras às suas devidas posições.

Por hora, é suficiente dizer que não foi sem espanto que, ao percorrer de volta o labirinto minotáurico que foi o processo de “Conversas com meu pai”, eu me dei conta dessa espécie de ato falho. Me dei conta que na sombra dessa tragédia incestuosa onde protagonizavam, absolutos, pai e filha, ainda que denegada, foracluída, "a mãe lá estava".

Ao fundo, uma lâmpada se acende sobre a MÃE, sentada em uma cadeira, compenetrada em sua ação de pentear infinitos fios de cabelo emaranhados.

Projeção: STABAT MATER

Áudio em off: Mãe “Dolorosa” cantando: “Pela Virgem dolorosa, nossa Mãe tão piedosa, perdoai-me, meu Jesus, perdoai-me, meu Jesus... (segue falando no áudio) Elas cantavam que tinha aquele agudo que penetrava no céu, era lindo! E uma vez que eu fui levar vocês três na missa comigo, imagina, eu não conseguia carregar uma no colo, a outra na mão, a outra não sei o que, aí eu fiquei sentada do lado de fora da igreja numa tristeza tão grande, que eu voltei pra casa. Foi um vazio muito grande... Não dá pra mim ir mais, sabe? Eu chorava, chorava, chorava, por causa da minha vida muito triste que eu achava, então eu chegava lá e meu choro era um lamento de... sei lá, um pedido de socorro pra igreja. Imagina que alguém pode fazer alguma coisa? Doce ilusão, desculpa... Foi um tempo de... de... eu achei que fosse de perdão né, mas no fundo eu sempre quis ouvir o pedido de perdão dele, ele nunca me pediu perdão. Porque ele me fez eu sofrer muito, né?! Sofrer não, judiou, eu não tinha tempo de sofrer. Quando ele tava bêbado, muito, que ele ficava enchendo o saco e eu queria dormir, ou os vizinhos, ou isso e aquilo, é feio falar? Eu cheguei a pegar um tal de “Nilsin”, uma coisa assim, que três gotinhas apagava, eu tentei... ele dormindo, tentei pingar na boca dele, várias vezes, nunca consegui, porque... parece que é uma coisa... a hora que... e o medo também de estar fazendo alguma coisa errada, que eu não sabia se podia misturar álcool com tranquilizante, então eu nunca fiz. Percebi que eu não tinha raiva dele quando eu fui cuidar dele quando ele teve câncer. Quantas descidas e subidas nessa serra. Então eu não tinha raiva dele, mas eu tinha mágoa. Quando vocês saíram pra descansar um pouco de ficar lá no hospital, eu fiquei sozinha com ele no quarto. E ele tava morrendo, eu ainda fiquei cantando pra ele aquelas músicas do Roberto que ele gostava. “As flores do jardim da nossa casa morreram todas, a saudades de você não sei o que...” Aí eu falava que eu perdoava ele, mas no fundo eu sei que eu não perdoei, né?”

A mãe ao fundo segue cantarolando. 

* O texto em questão, cujo as ideias serão retomadas ao longo da peça, é um artigo de 1985 chamado “Stabat mater” da autora Julia Kristeva.

(Fragmento de Stabat Mater)