andréa flores

Belém - PA

Andréa Flores é dramaturga, atriz, palhaça e artista pesquisadora. Professora da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará.

ouça a entrevista:

Andréa Flores, dramaturga, atriz, palhaça, artista pesquisadora, formada no convívio com mulheres fortes, apreendeu, desde cedo, o conceito de sororidade, e coloca em cena em parte de sua poética teatral, a se constatar pelos títulos das cinco peças escritas por ela ou em parceria: Amor, amor (2014); Rala, palhaço! (2015); Ô, de casa! Posso entrar para cuidar? (2016); Curupirá (2019); Divinas cabeças (2021). Pelas temáticas abordadas, pode-se afirmar que a escrita dessa jovem dramaturga se configura em uma poética cuidadosa. Cuidadosa no sentido do cuidado de si e do outro, demonstrado em suas dramaturgias amplas ou moventes conforme um dos lemas do grupo Coletivas Xoxós, do qual é uma das fundadoras. 

Em Amor, amor, escrita com Marcelo Vilela, a personagem tem no radinho de pilha o disparador para brincar com a memória de suas paixões. A palhaça lida como se o objeto tivesse vida própria, ela se deixa conduzir a encontros e desencontros apaixonados; entre lembranças de algum passado e um presente inventado, regadas a riso e muito amor. 

Leveza, alegria e descontração são a tônica do texto Rala, palhaço!, escrito em parceria com Wlad Lima. A peça inaugura o que as dramaturgas denominam de poética da palhaçaria malina, que agrega princípios da arte da palhaçaria, com o processo de malinagem, que designa o ato poético de “fazer maldade”. Conforme fala da personagem, sua necessidade é ralar o imposto, o duro, o repressor. 

Em 2016, contemplado por edital local de estímulo à produção artística, Ô, de casa! Posso entrar para cuidar?, dramaturgia coletiva que conta também com a assinatura de Andréa Flores, talvez seja a que mais explicita o cuidado consigo e com as outras pessoas, a peça é levada às casas e quem a recebe vivencia o teatro da intimidade, bem próximo de si.

O espetáculo solo Curupirá foi resultado, segundo Andréa Flores, de uma pesquisa cênica sobre comicidades das Amazônias de floresta profunda a descolonizar os risos produzidos no e pelo corpo da performer e palhaça em cena. Divinas cabeças, seu espetáculo mais recente, é um trabalho solo, em suas palavras: trata-se de uma escritura cênica em resposta poética à pergunta-desejo da criança, mas também ao mundo em travessias pandêmicas, por entre ancestralidades, negritude, espiritualidade, diferença, cura. A pergunta-desejo da menina é sobre como seria uma boneca que parecesse com ela. Uma boneca preta! 

Andréa mergulha em pesquisas que resultam em experimentações em busca de tecer, promover visibilidades, por em cena temas dos excluídos, a exemplo das inquietações das mulheres, dos indígenas, das memórias de afrodescendentes. Uma das experimentações de sua escrita é a das bioescrituras poéticas (histórias de vida em cena), o teatro ao alcance do tato, este em parceria com Wlad Lima, e o protagonismo de mulheres amazônidas. Ou seja, em solo ou em espetáculos outros, a atriz se desmembra em várias histórias, a exemplo da dramaturgia de Divinas cabeças. Entre canções, causos, chistes, memórias da família Flores, ela nos encanta e diverte.

“Quando criança, eu queria uma boneca que se parecesse comigo, só que eu não tinha ideia de como era se parecer comigo”. 

“Uma boneca que se parecesse comigo... Uma boneca teimosa? Hummm... Pode ser! Uma boneca... destrambelhada, desajeitada, que cai com facilidade? Talvez. Uma boneca selvagem, do jeito que mamãe uma vez disse que eu era. ‘Melhor ser selvagem que animal doméstico, mamãe!’, respondi. Eu sou malcriada, mas nós somos iguaizinhas. Uma boneca que se parecesse comigo... Já posso ir? Ah, eu vou!”

Assim, inquieta, movente, traquina, malina, cuidadosa, Andréa Flores perfuma graça, acidez, riso, crítica, carinho, feminismos, reminiscências. No embalo das sonoridades de seu corpo-história-memória atua na carnalidade amazônida, um teatro feito daqui: úmido, palpável, próximo, transpassante. E com essas escritas entranhadas de ser, ela atua e contagia seus alunos, seus leitores, seus espectadores, para que estes, além de apreciar suas criações cênicas, despertem para suas próprias bioescrituras ou outros voos da imaginação!

Bene Martins

Andréa Flores é dramaturga, atriz, palhaça e artista pesquisadora. Professora da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará.

Andréa Flores, dramaturga, atriz, palhaça, artista pesquisadora, formada no convívio com mulheres fortes, apreendeu, desde cedo, o conceito de sororidade, e coloca em cena em parte de sua poética teatral, a se constatar pelos títulos das cinco peças escritas por ela ou em parceria: Amor, amor (2014); Rala, palhaço! (2015); Ô, de casa! Posso entrar para cuidar? (2016); Curupirá (2019); Divinas cabeças (2021). Pelas temáticas abordadas, pode-se afirmar que a escrita dessa jovem dramaturga se configura em uma poética cuidadosa. Cuidadosa no sentido do cuidado de si e do outro, demonstrado em suas dramaturgias amplas ou moventes conforme um dos lemas do grupo Coletivas Xoxós, do qual é uma das fundadoras. 

Em Amor, amor, escrita com Marcelo Vilela, a personagem tem no radinho de pilha o disparador para brincar com a memória de suas paixões. A palhaça lida como se o objeto tivesse vida própria, ela se deixa conduzir a encontros e desencontros apaixonados; entre lembranças de algum passado e um presente inventado, regadas a riso e muito amor. 

Leveza, alegria e descontração são a tônica do texto Rala, palhaço!, escrito em parceria com Wlad Lima. A peça inaugura o que as dramaturgas denominam de poética da palhaçaria malina, que agrega princípios da arte da palhaçaria, com o processo de malinagem, que designa o ato poético de “fazer maldade”. Conforme fala da personagem, sua necessidade é ralar o imposto, o duro, o repressor. 

Em 2016, contemplado por edital local de estímulo à produção artística, Ô, de casa! Posso entrar para cuidar?, dramaturgia coletiva que conta também com a assinatura de Andréa Flores, talvez seja a que mais explicita o cuidado consigo e com as outras pessoas, a peça é levada às casas e quem a recebe vivencia o teatro da intimidade, bem próximo de si.

O espetáculo solo Curupirá foi resultado, segundo Andréa Flores, de uma pesquisa cênica sobre comicidades das Amazônias de floresta profunda a descolonizar os risos produzidos no e pelo corpo da performer e palhaça em cena. Divinas cabeças, seu espetáculo mais recente, é um trabalho solo, em suas palavras: trata-se de uma escritura cênica em resposta poética à pergunta-desejo da criança, mas também ao mundo em travessias pandêmicas, por entre ancestralidades, negritude, espiritualidade, diferença, cura. A pergunta-desejo da menina é sobre como seria uma boneca que parecesse com ela. Uma boneca preta! 

Andréa mergulha em pesquisas que resultam em experimentações em busca de tecer, promover visibilidades, por em cena temas dos excluídos, a exemplo das inquietações das mulheres, dos indígenas, das memórias de afrodescendentes. Uma das experimentações de sua escrita é a das bioescrituras poéticas (histórias de vida em cena), o teatro ao alcance do tato, este em parceria com Wlad Lima, e o protagonismo de mulheres amazônidas. Ou seja, em solo ou em espetáculos outros, a atriz se desmembra em várias histórias, a exemplo da dramaturgia de Divinas cabeças. Entre canções, causos, chistes, memórias da família Flores, ela nos encanta e diverte.

“Quando criança, eu queria uma boneca que se parecesse comigo, só que eu não tinha ideia de como era se parecer comigo”. 

“Uma boneca que se parecesse comigo... Uma boneca teimosa? Hummm... Pode ser! Uma boneca... destrambelhada, desajeitada, que cai com facilidade? Talvez. Uma boneca selvagem, do jeito que mamãe uma vez disse que eu era. ‘Melhor ser selvagem que animal doméstico, mamãe!’, respondi. Eu sou malcriada, mas nós somos iguaizinhas. Uma boneca que se parecesse comigo... Já posso ir? Ah, eu vou!”

Assim, inquieta, movente, traquina, malina, cuidadosa, Andréa Flores perfuma graça, acidez, riso, crítica, carinho, feminismos, reminiscências. No embalo das sonoridades de seu corpo-história-memória atua na carnalidade amazônida, um teatro feito daqui: úmido, palpável, próximo, transpassante. E com essas escritas entranhadas de ser, ela atua e contagia seus alunos, seus leitores, seus espectadores, para que estes, além de apreciar suas criações cênicas, despertem para suas próprias bioescrituras ou outros voos da imaginação!

Bene Martins

Tambor está velho de gritar
Oh, velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Oh, velho Deus dos homens, deixa-me ser tambor
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Oh, velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até a consumação da grande festa do batuque!
Oh, velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor

A palha nas mãos agora é medicina nas mãos da curandeira. Ela limpa suas pernas, braços, prepara o corpo para limpar o espaço de trabalho. Ali, ela trabalha pela produção de alegria, saúde, amor e fé.

(Fragmento de Divinas cabeças
*trecho do poema Quero ser tambor do poeta moçambicano José Craveirinha.)