nereide santiago

Manaus - AM

Nereide Santiago é dramaturga e diretora teatral. Fundadora da Companhia Teatral A Rã Qi Ri.

ouça a entrevista:

Nereide Santiago é um dos nomes mais importantes do teatro amazonense. Seu percurso artístico se inicia no fim da década 1960, quando fez parte do teatro universitário da antiga Universidade do Amazonas, hoje Universidade Federal do Amazonas. Em 1992, a diretora e dramaturga fundou a Companhia Teatral A Rã Qi Ri, grupo que se destaca por seu longo período de atuação e por lançar novos modelos estéticos e de produção teatral na cena local. A primeira empreitada do coletivo foi o projeto Demônios de Qorpo Santo, composto pela montagem de três peças do icônico dramaturgo gaúcho, muitas vezes lembrado como um precursor do teatro do absurdo. Autores dessa mesma linha estética, como Samuel Beckett e Eugène Ionesco, além de autores do existencialismo, como Jean-Paul Sartre, parecem ter influenciado a escrita de Nereide Santiago e dos primeiros trabalhos da Companhia Teatral A Rã Qi Ri. Em Nós atados, quatro personagens habitam, cada uma delas, uma “caixa-casa”. Figuras isoladas, mas em constante esforço por um diálogo. Recursos dramatúrgicos nada clássicos, como fragmentações, movimentos anacrônicos e divagações filosóficas, são utilizados pela autora para tratar, dentre outros assuntos, da incomunicabilidade humana, tema também frequente no teatro do absurdo, produzido nos anos pós-Segunda Guerra. As personagens, contraditórias e sem contornos fixos, buscam sua sobrevivência em meio a um contexto de violências, intolerâncias e incompreensões. Já em A busca, o leitor ou espectador acompanha dois personagens angustiados com o desaparecimento de dois amigos, que por sua vez estão numa sucessão de fugas marcadas pela nostalgia e saudade daqueles que tiveram que abandonar. Esperança e resistência marcam a obra, que se utiliza de recursos como o teatro de sombras, bonecos e pantomima.

Se a corrente existencialista e os questionamentos são marcantes em uma parte da produção de Nereide Santiago, a outra se volta para o universo indígena, suas mitologias, e seu confronto com o mundo ocidental. Espanto, vida e morte de um voyeur, por exemplo, é um texto que aborda o encontro entre a mitologia branca e os mitos dos povos yanomami que vivem na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil. A peça, repleta de metalinguagem, recebeu o prêmio de Dramaturgia PROARTE 2009 – Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas (SEC). Já Os teus olhos eu quero comer... É bom! leva à cena elementos da mitologia ticuna, o mais numeroso povo indígena na Amazônia brasileira. Nesta peça, o termo “descobrimento”, para tratar da chegada dos brancos nas terras indígenas, é revisto pela autora, sob uma perspectiva decolonial e de modo denunciativo. 

A formação dramatúrgica de Nereide Santiago se apoiou inicialmente na tradição oral, nos jogos de improviso, nas brincadeiras e festas populares, antecedendo mesmo à experiência de leitura de textos teatrais. Mais tarde, o conhecimento de grandes nomes da literatura dramática ocidental, dos trágicos gregos a Bertold Brecht e seu “distanciamento”, foi referencial em seu trabalho artístico e intelectual. Nereide possui um extenso percurso acadêmico, tendo realizado pesquisas na Universidade Federal Fluminense e na Université Stendhal, Grenoble 3, na França. Hoje é professora aposentada da Universidade Federal do Amazonas.

Gorete Lima

Nereide Santiago é dramaturga e diretora teatral. Fundadora da Companhia Teatral A Rã Qi Ri.

Nereide Santiago é um dos nomes mais importantes do teatro amazonense. Seu percurso artístico se inicia no fim da década 1960, quando fez parte do teatro universitário da antiga Universidade do Amazonas, hoje Universidade Federal do Amazonas. Em 1992, a diretora e dramaturga fundou a Companhia Teatral A Rã Qi Ri, grupo que se destaca por seu longo período de atuação e por lançar novos modelos estéticos e de produção teatral na cena local. A primeira empreitada do coletivo foi o projeto Demônios de Qorpo Santo, composto pela montagem de três peças do icônico dramaturgo gaúcho, muitas vezes lembrado como um precursor do teatro do absurdo. Autores dessa mesma linha estética, como Samuel Beckett e Eugène Ionesco, além de autores do existencialismo, como Jean-Paul Sartre, parecem ter influenciado a escrita de Nereide Santiago e dos primeiros trabalhos da Companhia Teatral A Rã Qi Ri. Em Nós atados, quatro personagens habitam, cada uma delas, uma “caixa-casa”. Figuras isoladas, mas em constante esforço por um diálogo. Recursos dramatúrgicos nada clássicos, como fragmentações, movimentos anacrônicos e divagações filosóficas, são utilizados pela autora para tratar, dentre outros assuntos, da incomunicabilidade humana, tema também frequente no teatro do absurdo, produzido nos anos pós-Segunda Guerra. As personagens, contraditórias e sem contornos fixos, buscam sua sobrevivência em meio a um contexto de violências, intolerâncias e incompreensões. Já em A busca, o leitor ou espectador acompanha dois personagens angustiados com o desaparecimento de dois amigos, que por sua vez estão numa sucessão de fugas marcadas pela nostalgia e saudade daqueles que tiveram que abandonar. Esperança e resistência marcam a obra, que se utiliza de recursos como o teatro de sombras, bonecos e pantomima.

Se a corrente existencialista e os questionamentos são marcantes em uma parte da produção de Nereide Santiago, a outra se volta para o universo indígena, suas mitologias, e seu confronto com o mundo ocidental. Espanto, vida e morte de um voyeur, por exemplo, é um texto que aborda o encontro entre a mitologia branca e os mitos dos povos yanomami que vivem na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil. A peça, repleta de metalinguagem, recebeu o prêmio de Dramaturgia PROARTE 2009 – Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas (SEC). Já Os teus olhos eu quero comer... É bom! leva à cena elementos da mitologia ticuna, o mais numeroso povo indígena na Amazônia brasileira. Nesta peça, o termo “descobrimento”, para tratar da chegada dos brancos nas terras indígenas, é revisto pela autora, sob uma perspectiva decolonial e de modo denunciativo. 

A formação dramatúrgica de Nereide Santiago se apoiou inicialmente na tradição oral, nos jogos de improviso, nas brincadeiras e festas populares, antecedendo mesmo à experiência de leitura de textos teatrais. Mais tarde, o conhecimento de grandes nomes da literatura dramática ocidental, dos trágicos gregos a Bertold Brecht e seu “distanciamento”, foi referencial em seu trabalho artístico e intelectual. Nereide possui um extenso percurso acadêmico, tendo realizado pesquisas na Universidade Federal Fluminense e na Université Stendhal, Grenoble 3, na França. Hoje é professora aposentada da Universidade Federal do Amazonas.

Gorete Lima

QUADRO 3

As paredes laterais internas das caixas de Jonas e Lia são abertas, aumentando o piso, estabelecendo comunicação entre eles. A área de cena fica, portanto, ampliada.

As personagens manipulam objetos como livros, papéis, fotos, experimentando, pintando, arrumando, atirando tudo ao chão para novamente arrumar. Fazem uma série de gestos narcisistas, olhando-se num espelho invisível. Exibem-se com ares vaidosos de aprovação. Desfilam como manequins de um lado a outro, fazendo do palco (da caixa) uma passarela. A música deverá animar o desfile.

Mudança da música para tons mais intimistas. Luz sóbria, incidindo sobre as personagens. Luz geral fraca, esmaecida.

JONAS: (Dirigindo-se a Lia.) Tu sabes, Lia, estou farto dessas coisas todas, essas lamúrias, tantas censuras, sempre alguém me dizendo o que devo ou não fazer.

LIA: (A Jonas.) Eu, também, não aguento mais! Qualquer coisa que signifique tolerância, comiseração ou apego, saio correndo para bem longe.

JONAS: Mas, por outro lado, não sei te dizer se estou exatamente atacado por essa doença, tão comum hoje em dia, a intolerância. O que achas?

LIA: Não acho que sejas intolerante, Jonas. De saco cheio, talvez seja o mais certo. Bem, eu entendo... um monte de razões deves ter...

JONAS: É, talvez. Depois, com todo esse burburinho dos dias de hoje não dá para a gente ser menos individualista. Não há tempo nenhum para outra coisa! (Simula uma corrida em direção contrária a Lia. Respira forte, sinais de cansaço.)

LIA: (Refletindo.) É verdade!... Essa corrida alucinada... sem nunca chegar!... (Corre em direção oposta a Jonas. Para, ofegante. Silêncio. Olhar distante, refletindo.) E pensar que ontem eu era de outra natureza... o que chamam de... humana, talvez...

JONAS: (Refletindo. Ar distante.) É... eu também... faz muito tempo...

LIA: (Voltando-se para Jonas.) Acredita, eu conseguia ver essas pessoas!...

JONAS: Imagina... a natureza humana!

LIA: Ficava ouvindo pacientemente as lamentações, tentando analisar as dores e suas
causas... Hoje... (Pausa. Vira-se de costas para a plateia.)

JONAS: É, faz muito tempo. Eu estava sempre procurando fazer algo por muita gente, servindo, me entregando... Agora... (Silêncio. Vira-se de costas para a plateia.)

As caixas de Sabina e Ulysses são dispostas de forma idêntica às de Jonas e Lia.

Sabina coloca o banco um passo à frente. Senta-se. Levanta-se, colocando o banco um passo à sua esquerda. Senta-se. Ulysses faz idênticos movimentos. Dá um passo à sua direita. Senta-se.

SABINA: (Dirigindo-se a Ulysses.) Agora, acho que não tem mais jeito! É um caso perdido! Ainda tens alguma esperança, Ulysses?

ULYSSES: (A Sabina. Ar de desânimo.) Hoje, depois de muita reflexão em cima do que vimos, devo reconhecer que todo esforço foi inútil.

SABINA: (Colocando o banco em outra posição, próxima ao ângulo do fundo da caixa. A Ulysses.) O que devemos fazer agora é deixá-los entregues à própria sorte.

ULYSSES: (Avança com o banco até o centro. Observa com a luneta a plateia. Senta-se. Olha mais uma vez a plateia.) É, não tem jeito, Sabina. É isso mesmo!

SABINA: (Coloca o banco numa diagonal até o centro. Senta-se de frente para Ulysses. Ar de inquietação.) O que me incomoda é que, agindo assim, não estamos diferentes deles. Estás percebendo a semelhança?

ULYSSES: (Voltando-se de frente para Sabina.) Estou, claro! Também não estou encontrando qualquer diferença.

SABINA: Por outro lado, temos que concordar: quanta pretensão a nossa!

ULYSSES: Temos que lavar as mãos, não há mesmo saída!

SABINA: (Com ironia.) Salvadores do mundo! (Com desprezo.) Que se dane todo mundo! (Silêncio.) Acho que pensando assim, a gente sofre menos.

ULYSSES: Superiores?! Quanta ilusão! Isso não existe!...

SABINA: É, decididamente, eu estou deixando pra lá. Também aconteceu comigo!... Ontem...

ULYSSES: E comigo?! Eu, que nunca quis ser omisso!... Antes... (Sabina e Ulysses colocam os bancos na posição do início da peça.)

QUADRO 4

Mudança de iluminação. Os praticáveis das quatro personagens voltam à forma inicial.
Elas retomam seus lugares.

ULYSSES: (Para a plateia, olhar distante.) Antes, eu já sabia, tinha tanta certeza!... Não foi à toa que descobri aquela trilha... Mas vejam só onde ela foi me levar!... Eu precisei passar por tudo isso!... Se não perdi a vida, quase perdi o que me restava de humanidade. Será que a isso chamam provação? E, se for assim, eu posso dizer que venci? Venci?! O que ganhei com isso? Hein? Um lugar ao sol? Onde fica isso? E se eu chegar lá, o que levo comigo? Nada? Então, por que me prometeram? Provação... lugar ao sol... Mas, a bem pensar, acho que fiz algumas descobertas. (Rindo, examina a luneta.) Isto é, nós fizemos! Ela e eu, andamos por muito longe! Mas, pensando bem, em alguns momentos, eu vejo agora, não parecia estar vendo as coisas como elas são... de verdade! Alguma coisa na sua matéria, ou na ausência desta, me intrigava... Assim como nas visões dos sonhos!... No entanto, era tudo tão verdadeiro!


LIA: (Ar de estranheza, como despertando de um sonho.) Incrível! Tudo aconteceu nesta sala! E comigo!... Eu, ali, participando, fazendo, não fazendo, às vezes, mas ali. (Caminha de um lado a outro da caixa, examinando.) O que é mais absurdo é que tantas coisas pareciam escapar da realidade! Mas não, não foi assim! Aconteceu mesmo! Disso tenho certeza! Eu não arredei o pé. Ou, pelo menos, não por muito tempo. (Dirigindo-se à plateia.) E agora, o que vai acontecer, depois de tudo o que vi? E o que fiz? Será que vou precisar dar mais uma volta?

JONAS: (Caminha de um lado a outro da caixa, refletindo.) Como se pode ter vivido tanto em tão pouco tempo? Aquelas pessoas que estiveram comigo, as mais estranhas!... É verdade que eu devo parecer... Eu mesmo, sou muito estranho! Como pude fazer tudo aquilo? E agora, sobrou alguém para me aplicar a punição? Não, não estou vendo... Está tudo muito vazio... (Examina o estado da roupa e a ordem dos objetos empilhados.) E agora?

SABINA: Ai, estou terrivelmente cansada! Pudera, esses acontecimentos todos, quase ao mesmo tempo!... Vocês tiveram tempo de perceber a gravidade em tudo o que viram aqui? (Circulando com os olhos por toda a plateia.) Sim, vocês estavam aqui, tenho certeza! Agora, como vamos poder analisar aquelas ações tão absurdas, tão estranhas! Disparatadas mesmo! Isso é grave, gravíssimo! Como pude estar ao mesmo tempo numa conversa inofensiva, atravessar um sonho e chegar ao local do crime? Por que cheguei até aqui? Vocês já têm a resposta? (Pausa.) E vocês? Por que vieram até aqui? Por quê? 

Os focos variam de intensidade e cor, incidindo fracos sobre os atores, acentuando-se, no final, apenas os contornos dos praticáveis.
Fim.

(Fragmento de Nós Atados)