grupo embaraça

Brasília - DF

O Grupo Embaraça é um coletivo criado em 2012 pelas artistas negras Fernanda Jacob e Tuanny Araujo, com foco em temáticas raciais.

ouça a entrevista:

A dupla Fernanda Jacob e Tuanny Araújo se conheceram durante o curso de Artes Cênicas na Universidade de Brasília, e o incômodo que partilhavam diante das diversas representações da mulher negra na dramaturgia as conduziu à criação do Grupo Embaraça. Tuanny é atriz, escritora, dramaturga e diretora. Fernanda é atriz, diretora, musicista, dramaturga e diretora musical, protagonizou a peça Dona Ivone Lara – um sorriso negro, pela qual recebeu indicação ao prêmio Bibi Ferreira na categoria “Melhor Atriz em Musicais”. Fernanda e Tuanny são artistas múltiplas e escrevem para tomar as escolhas nos processos de representação para si. Escrever tem uma relevância genuína na afirmação do lugar de fala, um modo de pautar as próprias questões e ao mesmo tempo afirmar a dramaturgia como campo de resistência, a exemplo de Pentes (2013), Afeto (2019) e Ramal 003 (2020).

A dramaturgia do Embaraça retoma e atualiza um debate que vemos se inscrever na linha do tempo do teatro brasileiro desde o Teatro Experimental do Negro – ou talvez desde antes, com a Companhia Negra de Revista: como, quando, onde e em que circunstâncias os corpos e as narrativas da população negra brasileira são representados em cena? E, no caso específico da pesquisa do Embaraça, como as mulheres negras são representadas? Nesta equação, a produção de uma dramaturgia negra autoral, processo que se consolidou lentamente ao longo de todo o século XX e início do XXI, aponta um novo marcador para a revisão dessa linha do tempo.

No Distrito Federal, a história da dramaturgia negra feminina encontra na obra de Cristiane Sobral – escritora, poetisa e primeira atriz negra graduada pela Universidade de Brasília, em 1998 – uma referência política e estética de grande relevância. Sua peça de formatura – o espetáculo Uma boneca no lixo – foi estopim para a criação da Cia. de Teatro Negro Cabeça Feita, cuja pesquisa visa à construção de uma dramaturgia que reposicione a personagem negra no papel de sujeito. Em Uma boneca no lixo, a cruel situação do abandono de uma bebê negra na lata de lixo e seu resgate por uma enfermeira japonesa desdobram-se em uma narrativa de caráter autobiográfico, que coloca em evidência o depoimento pessoal como procedimento de criação. 

Pentes é uma obra baseada no depoimento pessoal das dramaturgas-atrizes do Grupo Embaraça. Abordando situações, conflitos e dores que viveram, elas discutem a identidade da mulher negra a partir de seus cabelos crespos. O texto é composto por esquetes, cenas sem diálogo, imagens-flashes, cenas em vídeo e um desejo de incitar, incomodar e levar o público a refletir sobre os mecanismos do racismo na mídia, nas instituições, no mercado de trabalho, na rua, nos concursos de beleza e nos ciclos íntimos – sejam eles familiares ou de amizade. Afeto, por sua vez, debate a solidão feminina negra, que começa a se manifestar na simples escolha de um par para a festa junina.

Os aspectos éticos implicados nas práticas e processos de representação são uma chave de leitura fundamental para a dramaturgia do Embaraça. É certo que tais aspectos se atualizam conforme as tensões político-sociais e as tecnologias disponíveis a cada época. E para não nos demorarmos muito no evidente caráter filosófico que a discussão em torno da ética poderia aportar ao texto, ressalto dois aspectos no modo de criar do Embaraça. O primeiro é a desconstrução da ideia de que toda arte engajada em questões sociais necessariamente deixa em segundo plano aspectos estéticos dos trabalhos que abriga sob essa denominação. Já o segundo diz respeito aos processos de produção em que os corpos estão engendrados: todas as funções da ficha técnica são ocupadas por mulheres. 

Glauber Coradesqui

O Grupo Embaraça é um coletivo criado em 2012 pelas artistas negras Fernanda Jacob e Tuanny Araujo, com foco em temáticas raciais.

A dupla Fernanda Jacob e Tuanny Araújo se conheceram durante o curso de Artes Cênicas na Universidade de Brasília, e o incômodo que partilhavam diante das diversas representações da mulher negra na dramaturgia as conduziu à criação do Grupo Embaraça. Tuanny é atriz, escritora, dramaturga e diretora. Fernanda é atriz, diretora, musicista, dramaturga e diretora musical, protagonizou a peça Dona Ivone Lara – um sorriso negro, pela qual recebeu indicação ao prêmio Bibi Ferreira na categoria “Melhor Atriz em Musicais”. Fernanda e Tuanny são artistas múltiplas e escrevem para tomar as escolhas nos processos de representação para si. Escrever tem uma relevância genuína na afirmação do lugar de fala, um modo de pautar as próprias questões e ao mesmo tempo afirmar a dramaturgia como campo de resistência, a exemplo de Pentes (2013), Afeto (2019) e Ramal 003 (2020).

A dramaturgia do Embaraça retoma e atualiza um debate que vemos se inscrever na linha do tempo do teatro brasileiro desde o Teatro Experimental do Negro – ou talvez desde antes, com a Companhia Negra de Revista: como, quando, onde e em que circunstâncias os corpos e as narrativas da população negra brasileira são representados em cena? E, no caso específico da pesquisa do Embaraça, como as mulheres negras são representadas? Nesta equação, a produção de uma dramaturgia negra autoral, processo que se consolidou lentamente ao longo de todo o século XX e início do XXI, aponta um novo marcador para a revisão dessa linha do tempo.

No Distrito Federal, a história da dramaturgia negra feminina encontra na obra de Cristiane Sobral – escritora, poetisa e primeira atriz negra graduada pela Universidade de Brasília, em 1998 – uma referência política e estética de grande relevância. Sua peça de formatura – o espetáculo Uma boneca no lixo – foi estopim para a criação da Cia. de Teatro Negro Cabeça Feita, cuja pesquisa visa à construção de uma dramaturgia que reposicione a personagem negra no papel de sujeito. Em Uma boneca no lixo, a cruel situação do abandono de uma bebê negra na lata de lixo e seu resgate por uma enfermeira japonesa desdobram-se em uma narrativa de caráter autobiográfico, que coloca em evidência o depoimento pessoal como procedimento de criação. 

Pentes é uma obra baseada no depoimento pessoal das dramaturgas-atrizes do Grupo Embaraça. Abordando situações, conflitos e dores que viveram, elas discutem a identidade da mulher negra a partir de seus cabelos crespos. O texto é composto por esquetes, cenas sem diálogo, imagens-flashes, cenas em vídeo e um desejo de incitar, incomodar e levar o público a refletir sobre os mecanismos do racismo na mídia, nas instituições, no mercado de trabalho, na rua, nos concursos de beleza e nos ciclos íntimos – sejam eles familiares ou de amizade. Afeto, por sua vez, debate a solidão feminina negra, que começa a se manifestar na simples escolha de um par para a festa junina.

Os aspectos éticos implicados nas práticas e processos de representação são uma chave de leitura fundamental para a dramaturgia do Embaraça. É certo que tais aspectos se atualizam conforme as tensões político-sociais e as tecnologias disponíveis a cada época. E para não nos demorarmos muito no evidente caráter filosófico que a discussão em torno da ética poderia aportar ao texto, ressalto dois aspectos no modo de criar do Embaraça. O primeiro é a desconstrução da ideia de que toda arte engajada em questões sociais necessariamente deixa em segundo plano aspectos estéticos dos trabalhos que abriga sob essa denominação. Já o segundo diz respeito aos processos de produção em que os corpos estão engendrados: todas as funções da ficha técnica são ocupadas por mulheres. 

Glauber Coradesqui

Atriz A – Eu lembro de uma festa junina... Quando eu vi aquele tanto de bandeirinhas, aquele cheiro de milho assado... A quadra da escola cheia de gente, aí chegando perto da quadrilha, um menino veio, me pegou pelo braço, me jogou em uma sala escura e me trancou lá dentro. Eu não tive tempo de me defender e não entendi nada... Quando eu olho para o lado, um garoto do oitavo ano estava lá, ele também tinha sido pego. Então começamos a pedir ajuda, quando estávamos quase roucos de tanto gritar, o menino que nos prendeu lá dentro apareceu pela fresta da porta e, ameaçando, disse pra o outro:
“Pra você sair daí, vai ter que beijar a boca dessa neguinha”.

Eu não me lembro muito do que aconteceu depois disso, algumas imagens, uns borrões, eu apaguei da memória por vontade mesmo. Mas o que ficou na minha cabeça, o que eu nunca consegui esquecer, foi ele falando “boca” com uma cara de nojo... Boca. Boca. Era a minha boca.

(Atriz A fica sentada em silêncio por um tempo. Em um rompante começa a esmurrar a mesa, vai até alguém do público e diz apontando o dedo.)

Atriz A – Eu te rogo uma praga. Até você pagar pelo que me fez, tudo que fizer vai dar errado. Enquanto não pagar pelo que me fez até o que pensar vai dar errado. Sabe por quê? Porque eu estou aqui. Eu tô aqui. Eu estou aqui. Eu tô aqui.

(Atriz A volta a se sentar na cadeira se rocompondo. Atriz B estende as mãos enquanto sussurra o refrão de “Assum Preto”. As duas cantam juntas. Começam a rir novamente.)

Atriz B – Eu te jogo uma praga...

Atriz A – Eu jogo... e é poderosa... Tem algumas ausências que são percebidas séculos depois. Sem par na festa junina. Sem par na brincadeira. Sem par para o afeto. Sem par no primeiro beijo.
Atriz B – Já outras presenças existem mesmo depois do passado. O apelido infame, o olhar com desprezo, a palavra violenta, o gesto hostil. Só a nossa infância começou há uns 400 anos atrás e isso quase ninguém percebe e nem vão perceber. Mas o que eles não sabem é que teve uma coroa que veio bem antes. E não é só a gente que carrega tantos anos assim...

(A luz vai diminuindo, Atriz B se prepara para ir até a projeção. Tira as roupas e entrega para Atriz A. Na projeção há seu corpo já nu, recortado e fundido, fazendo alusão à imagem da “Mulher Vitruviana” – da pintora Harmonia Rosales, recriação da obra de Leonardo da Vinci: O Homem Vitruviano).

Atriz B – Eu não sou como as outras criações, embora eu seja o princípio, que manifestam a vontade de procriar. Que seja um acordo entre nós. Não saiam falando mal da criadora, só por encontrarem sua forma pessimista. É que me tiraram a vontade de gerar e talvez eu tenha me tornado oca. É que exige muita, mas muita coragem pra colocar um corpo preto no mundo. Eu não sou como as outras criações, embora eu seja o princípio, que manifestam a vontade de apaziguar. Que seja um outro acordo entre nós. Não saiam dizendo mal da criadora, só por encontrarem sua forma rígida. É que me tiraram o sossego e talvez eu tenha me tornado fria. Eu não sou como as outras criações, embora eu seja o princípio, que manifestam a vontade de afetar. Que seja um último acordo entre nós. Não saiam falando mal da criadora, só por darem de cara com a guerra. É que me tiraram a paz e talvez eu tenha me tornado tempestade.

(Projeção vai diminuindo até acabar. Atriz B se deita no chão e se transforma em um corpo, está morta. Atriz A entra com uma câmera na mão. Tira fotos e examina o corpo encontrado. Vai cobrir o corpo com um lençol branco. Faz uma perícia).

(Fragmento de Afeto)