grace passô

Belo Horizonte - MG

Grace Passô é dramaturga, atriz e diretora de teatro e cinema.

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As dramaturgias de Grace Passô estão, explícita ou implicitamente, assentadas em experiências, acontecimentos ou fenômenos marcados por algum grau de estranhamento. Significados do mundo, relações humanas, convenções e imaginários sociais, além dos próprios dispositivos cênico-dramatúrgicos, são estranhados, desestabilizados, em criações que, em tensão com seus contextos históricos, visam borrar a realidade imediata. Ao discutir suas noções de teatro, a artista afirmou: “Me interessa criar situações estranhas para desmontar noções estáveis sobre o que é um ser”, e ainda: “A potência de uma obra é a potência da situação que ela cria entre as pessoas”. Embora não resumam a imensidade poética de Grace, estas são, parecem-nos, duas dimensões fundamentais que constituem as criações da artista, pois aponta para elementos concomitantes em sua trajetória, a saber: a intrincada experimentação formal, recusando formatos engessados de escrita teatral e, ao mesmo tempo, a busca por construir intensas (e disruptivas) relações e interlocuções entre os artistas em cena e entre artistas e público. Nestes processos, a presença de personagens ou actantes narradores é recorrente nas criações da autora. Tais figuras interpelam diretamente a plateia, furam o mundo ficcional supostamente hermético e costuram (nem sempre linearmente) os fios das histórias.

Nascida em Belo Horizonte, a atriz, diretora e dramaturga, Grace Passô, estudou no Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado, onde obteve algumas bases técnicas de atuação cênica. Desde o início de sua vida profissional, Grace colaborou com distintos grupos teatrais da capital mineira, como a Cia. Clara, o Invertido e a Armatrux, além de grupos oriundos de outras localidades, como a companhia brasileira de teatro e o Lume, envolvendo-se radicalmente nos chamados processos colaborativos. Porém, a sua atuação mais contundente, em BH, deu-se com o grupo Espanca!, cofundado pela artista em 2004. A história do sobredito grupo é um vigoroso ponto de inflexão no panorama das artes cênicas de Minas Gerais e do Brasil, tanto pela força inventiva de suas encenações quanto pelas criativas articulações estabelecidas com a cidade de Belo Horizonte, seus criadores, seus diferentes movimentos e projetos culturais. Ao longo de quase duas décadas de trabalhos e após inumeráveis transformações, o Espanca! contribuiu sobejamente para a afirmação de uma dramaturgia autoral e dos coletivos teatrais em BH. Com o grupo, Grace assinou os seguintes textos: Por Elise (2005) – com efeito, a estreia do grupo –, Amores surdos (2006); Congresso Internacional do Medo (2008) e Marcha para Zenturo (2009), este concebido em parceria com o Grupo XIX de Teatro (SP). 

O crítico teatral Kil Abreu destaca dois aspectos formais neste conjunto dramatúrgico, quais sejam: a explicitação dos subterrâneos mecanismos e artifícios da linguagem e a vívida manipulação de estratégias metafóricas e imaginativas para transfigurar o real. Por Elise se estrutura a partir de singelos encontros e desencontros, miudezas diárias, pequenas narrativas ordinárias que vão descortinando uma vibração poética cravada no cotidiano. Aqui, Grace já apresenta traços que irão se reconfigurar nos futuros textos: sutileza e ironia na construção das imagens e dos diálogos. Em Amores surdos, um elemento fantástico desvela um contexto familiar imerso em uma grave crise. O hipopótamo escondido em um dos cômodos da casa materializa, de alguma maneira, as dores, as ausências e os silêncios da família. É importante destacar que Grace Passô voltará ao ambiente doméstico com a obra Os ancestrais (2013), encenada pelo grupo Invertido. O caráter surreal, entre a secura e o lirismo, desenha uma família à beira do precipício emocional após o desmoronamento de sua casa. Neste universo, debate-se as mazelas e injustiças sociais do país ao mesmo tempo em que se investiga as subjetividades ali presentes. Congresso Internacional do Medo, por sua vez, discute essencialmente a linguagem, seus limites e poderes. Quando um grupo de conferencistas, advindos de diversas localidades e falantes de línguas diferentes, se encontra, resta-nos perguntar: o que pode (ou não) ser traduzido? Quais os diálogos possíveis? Por fim, Marcha para Zenturo articula um espinhoso reencontro entre cinco amigos para celebrar o réveillon. A estrutura do texto é das mais sofisticadas pela confluência de temporalidades distintas, pela intrincada metalinguagem e por delinear estrategicamente as frustrações, os conflitos e, enfim, os candentes afetos entre as personagens. 

Um segundo conjunto de obras, a despeito de suas disparidades, investiga, de maneira mais diametral, a invenção do outro, as alteridades, as subjetividades marcadas por estigmas sociais de ordem racista, machista ou xenófoba, questionando o próprio olhar que deseja petrificar as singularidades (e pluralidades) identitárias, culturais e tantas outras que existem. Incluem-se aí Vaga carne (2016), primeiro monólogo de Grace; Mata teu pai (2017) e Preto (2017), escrita com Márcio Abreu e Nadja Naira. Em síntese, estas peças apontam para outras possibilidades de coexistência e de sociabilidades não ancoradas nas hierarquias, fabulando maneiras dinâmicas e insubordinadas de ser e de estar no mundo. O forte caráter performático destas criações coloca em evidência a corporeidade em sua densidade produtora de sentidos, discursos e afetações. “[...] mas me interessa furar a tortura simbólica das imagens que não deixam nossa imagem viver plenamente, com amor, com beleza, com dinheiro”, afirma uma personagem em Preto. Em tais obras aborda-se não apenas as potencialidades da linguagem (e sua presença nas relações de poder), mas também os seus vãos, as zonas que ela não alcança, as suas indeterminações (questões presentes, direta ou indiretamente, em Amores surdos, Congresso... e Marcha para Zenturo). Já em Vaga carne, uma errante voz invade o corpo de uma mulher negra, a própria atriz em sua irrecusável presença. Dos entrechoques entre o corpo e a voz (agora corporificada) nasce uma série de pensamentos, desejos, silêncios, questionamentos e tensões que colocam em xeque noções engessadas de identidade, história, mulher, etc. Voz, aqui, diz respeito a dimensões sonoras, relacionais e ético-políticas. 

No contexto pandêmico, três trabalhos teatrais de Grace Passô merecem destaque: Frequência 2020; Ficções Sônicas 00 e Ficções Sônicas 02. Em geral, são criações que investigam tanto as relações/interpenetrações entre teatro e cinema quanto as sonoridades/musicalidades das palavras (interesse, diga-se de passagem, presente em montagens anteriores, como Vaga carne), sem perder de vista contundentes debates acerca da negritude e da própria vida cultural do país. Ao longo de sua carreira (também vívida no âmbito cinematográfico), Grace Passô já recebeu inumeráveis prêmios e indicações, já circulou por festivais nacionais e internacionais, além de possuir textos traduzidos para diversos idiomas, como o inglês, o espanhol e o mandarim. A artista é, indubitavelmente, um nome fundamental no teatro brasileiro contemporâneo.

Guilherme Diniz

Grace Passô é dramaturga, atriz e diretora de teatro e cinema.

As dramaturgias de Grace Passô estão, explícita ou implicitamente, assentadas em experiências, acontecimentos ou fenômenos marcados por algum grau de estranhamento. Significados do mundo, relações humanas, convenções e imaginários sociais, além dos próprios dispositivos cênico-dramatúrgicos, são estranhados, desestabilizados, em criações que, em tensão com seus contextos históricos, visam borrar a realidade imediata. Ao discutir suas noções de teatro, a artista afirmou: “Me interessa criar situações estranhas para desmontar noções estáveis sobre o que é um ser”, e ainda: “A potência de uma obra é a potência da situação que ela cria entre as pessoas”. Embora não resumam a imensidade poética de Grace, estas são, parecem-nos, duas dimensões fundamentais que constituem as criações da artista, pois aponta para elementos concomitantes em sua trajetória, a saber: a intrincada experimentação formal, recusando formatos engessados de escrita teatral e, ao mesmo tempo, a busca por construir intensas (e disruptivas) relações e interlocuções entre os artistas em cena e entre artistas e público. Nestes processos, a presença de personagens ou actantes narradores é recorrente nas criações da autora. Tais figuras interpelam diretamente a plateia, furam o mundo ficcional supostamente hermético e costuram (nem sempre linearmente) os fios das histórias.

Nascida em Belo Horizonte, a atriz, diretora e dramaturga, Grace Passô, estudou no Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado, onde obteve algumas bases técnicas de atuação cênica. Desde o início de sua vida profissional, Grace colaborou com distintos grupos teatrais da capital mineira, como a Cia. Clara, o Invertido e a Armatrux, além de grupos oriundos de outras localidades, como a companhia brasileira de teatro e o Lume, envolvendo-se radicalmente nos chamados processos colaborativos. Porém, a sua atuação mais contundente, em BH, deu-se com o grupo Espanca!, cofundado pela artista em 2004. A história do sobredito grupo é um vigoroso ponto de inflexão no panorama das artes cênicas de Minas Gerais e do Brasil, tanto pela força inventiva de suas encenações quanto pelas criativas articulações estabelecidas com a cidade de Belo Horizonte, seus criadores, seus diferentes movimentos e projetos culturais. Ao longo de quase duas décadas de trabalhos e após inumeráveis transformações, o Espanca! contribuiu sobejamente para a afirmação de uma dramaturgia autoral e dos coletivos teatrais em BH. Com o grupo, Grace assinou os seguintes textos: Por Elise (2005) – com efeito, a estreia do grupo –, Amores surdos (2006); Congresso Internacional do Medo (2008) e Marcha para Zenturo (2009), este concebido em parceria com o Grupo XIX de Teatro (SP). 

O crítico teatral Kil Abreu destaca dois aspectos formais neste conjunto dramatúrgico, quais sejam: a explicitação dos subterrâneos mecanismos e artifícios da linguagem e a vívida manipulação de estratégias metafóricas e imaginativas para transfigurar o real. Por Elise se estrutura a partir de singelos encontros e desencontros, miudezas diárias, pequenas narrativas ordinárias que vão descortinando uma vibração poética cravada no cotidiano. Aqui, Grace já apresenta traços que irão se reconfigurar nos futuros textos: sutileza e ironia na construção das imagens e dos diálogos. Em Amores surdos, um elemento fantástico desvela um contexto familiar imerso em uma grave crise. O hipopótamo escondido em um dos cômodos da casa materializa, de alguma maneira, as dores, as ausências e os silêncios da família. É importante destacar que Grace Passô voltará ao ambiente doméstico com a obra Os ancestrais (2013), encenada pelo grupo Invertido. O caráter surreal, entre a secura e o lirismo, desenha uma família à beira do precipício emocional após o desmoronamento de sua casa. Neste universo, debate-se as mazelas e injustiças sociais do país ao mesmo tempo em que se investiga as subjetividades ali presentes. Congresso Internacional do Medo, por sua vez, discute essencialmente a linguagem, seus limites e poderes. Quando um grupo de conferencistas, advindos de diversas localidades e falantes de línguas diferentes, se encontra, resta-nos perguntar: o que pode (ou não) ser traduzido? Quais os diálogos possíveis? Por fim, Marcha para Zenturo articula um espinhoso reencontro entre cinco amigos para celebrar o réveillon. A estrutura do texto é das mais sofisticadas pela confluência de temporalidades distintas, pela intrincada metalinguagem e por delinear estrategicamente as frustrações, os conflitos e, enfim, os candentes afetos entre as personagens. 

Um segundo conjunto de obras, a despeito de suas disparidades, investiga, de maneira mais diametral, a invenção do outro, as alteridades, as subjetividades marcadas por estigmas sociais de ordem racista, machista ou xenófoba, questionando o próprio olhar que deseja petrificar as singularidades (e pluralidades) identitárias, culturais e tantas outras que existem. Incluem-se aí Vaga carne (2016), primeiro monólogo de Grace; Mata teu pai (2017) e Preto (2017), escrita com Márcio Abreu e Nadja Naira. Em síntese, estas peças apontam para outras possibilidades de coexistência e de sociabilidades não ancoradas nas hierarquias, fabulando maneiras dinâmicas e insubordinadas de ser e de estar no mundo. O forte caráter performático destas criações coloca em evidência a corporeidade em sua densidade produtora de sentidos, discursos e afetações. “[...] mas me interessa furar a tortura simbólica das imagens que não deixam nossa imagem viver plenamente, com amor, com beleza, com dinheiro”, afirma uma personagem em Preto. Em tais obras aborda-se não apenas as potencialidades da linguagem (e sua presença nas relações de poder), mas também os seus vãos, as zonas que ela não alcança, as suas indeterminações (questões presentes, direta ou indiretamente, em Amores surdos, Congresso... e Marcha para Zenturo). Já em Vaga carne, uma errante voz invade o corpo de uma mulher negra, a própria atriz em sua irrecusável presença. Dos entrechoques entre o corpo e a voz (agora corporificada) nasce uma série de pensamentos, desejos, silêncios, questionamentos e tensões que colocam em xeque noções engessadas de identidade, história, mulher, etc. Voz, aqui, diz respeito a dimensões sonoras, relacionais e ético-políticas. 

No contexto pandêmico, três trabalhos teatrais de Grace Passô merecem destaque: Frequência 2020; Ficções Sônicas 00 e Ficções Sônicas 02. Em geral, são criações que investigam tanto as relações/interpenetrações entre teatro e cinema quanto as sonoridades/musicalidades das palavras (interesse, diga-se de passagem, presente em montagens anteriores, como Vaga carne), sem perder de vista contundentes debates acerca da negritude e da própria vida cultural do país. Ao longo de sua carreira (também vívida no âmbito cinematográfico), Grace Passô já recebeu inumeráveis prêmios e indicações, já circulou por festivais nacionais e internacionais, além de possuir textos traduzidos para diversos idiomas, como o inglês, o espanhol e o mandarim. A artista é, indubitavelmente, um nome fundamental no teatro brasileiro contemporâneo.

Guilherme Diniz

Sou uma voz, apenas isso.

E, mesmo sabendo que vocês não acreditam nesse tipo de existência, que não é humana, vim até aqui, proferir sons de vossas línguas limitadas. Línguas que não decidem. Não decidem se falam o que escrevem, ou se escrevem o que falam. Estou me comunicando com palavras de um bicho humano, porque vocês são tão egoístas, tão egoístas, que só entendem as próprias línguas. Eu poderia me comunicar em Código Morse, em sons inaudíveis, em ondas magnéticas, ou qualquer outra coisa assim. Vocês pensam que minha existência não existe, mas precisam saber que vozes existem sim. E invadem matérias. E são vorazes pelas matérias.

Ontem entrei em você, coisa. É possível. Mas você não lembra. Lembra? Lembra sim... você pensou que era a lepra, o vento, a luz que simplesmente pincelou o brilho da sua imagem. Tudo imagem: imagem cadeira, imagem sofá, imagem azeite, imagem âmbar, imagem pato, imagem cavalo, imagem cachorro, imagem mulher.

O corpo da mulher é visto.

E de novo, a Voz, no breu:
Alguns minutos atrás, por exemplo, eu penetrei em uma dessas cadeiras. Posso penetrar, invadir, ocupar tudo. Também não tenho começo, nem fim, nem começo. Também não tenho vida, porque eu não tenho fim. Se eu não tenho fim, eu não tenho vida. Eu penetro a matéria, saio dela, eu proclamo matéria, eu sou livre, eu posso. Posso encerrar tudo isto aqui e partir. Partir pra outra cerimônia, eu posso. Em outro lugar. Posso. Posso entrar na fonte de energia, por que não? Eu posso, eu posso…

Posso entrar, inclusive...

Dentro desta paisagem.

Vê-se o corpo da mulher. Inerte. Sem ação no mundo. É de lá que agora a voz fala:

Nada é oco por aqui. Não, não é oco.

Tudo tão deslizante, como os cremes.

Escuro, tudo escuro. Escuro.

Se virássemos este corpo ao avesso, vocês entenderiam: aqui é um lugar escuro, escuro.

E tudo isto que está aqui dentro: isto, isto, isto, isto aqui também, isto, surpreende-se, boa noite, coração!, então é você, seu danadinho, olá!, se eu virasse este corpo ao avesso, teria
que encarar a fera lá fora...

Estão ouvindo? Você ouve, coração? Pulmão? Sangue? Osso? Lá fora existe um bicho feroz, coisa de manter flechas e armas nas mãos! Sabem que nome tem esse bicho? Sabem como se denomina esse bicho? Sabem que nome tem?

O olhar dos outros.

Aqui dentro não entra o sol, o sol não entra, mas também não faz falta nenhuma. Para o público. Peço que me escutem pra que vocês tenham consciência de si mesmos, é tudo escuro dentro de ti, ti, ti e ti e ti. E também não são objetos, não, é uma vegetação, ou... uma... máquina, tudo move, move, move, percebem?

Silêncio. O corpo continua sem ação.

Afogada no sangue. Acho que estou cheia de sangue! Devo estar vermelha, é uma textura, estou puro sangue violento, puro sangue veloz, verdade, o sangue é tempestade e tudo move, move, move, freneticamente move, move, vocês percebem?

Um braço se ergue como uma porta velha que range lentamente.

...enquanto tenta erguer o braço. Nunca precisei fazer tanto esforço. É como uma embarcação, estou erguendo uma vela gigantesca, é como mover um barco, como se estivesse numa tempestade e é meu som que move o leme.

Balançando a cabeça. Ela está balançando a cabeça? Eu estou tentando daqui. Esta mulher está balançando a cabeça? Essa espécie de sino, espécie de grande capela, grande capela. Estou dentro de um ninho, como se numa floresta... O sangue, o sangue é uma tempestade, epidemia, e aqui há espécies de ramos, eu estou sentindo ramos, é nojento, é como adubo da terra, é essa a consistência, entendem?

Movendo os olhos pelo espaço. E aqui, os faróis da paisagem.
Olhos são faróis.
Ou são facas?
Ou moluscos.
É um susto. É o diabo. É tudo junto.

(Fragmento de Vaga carne)