euler lopes

Barra dos Coqueiros - SE

Euler Lopes é dramaturga e professora. Integrante do grupo A tua Lona.

ouça a entrevista:

Um mergulho nas entranhas da(o) ser humano, em suas mais plurais e diversas camadas, texturas e significados. Assim podemos nos referir ao trabalho de Euler Lopes. Natural de Aracaju, Sergipe, Euler vem desenvolvendo uma importante trajetória na cena e na dramaturgia em seu estado, sobretudo como alguém que atua na prática e na articulação dos eixos de formação e do pensamento sobre o fazer teatral e a escrita dramatúrgica.

Em Sergipe, como é realidade de muitas localidades no Brasil fora dos grandes centros, a formação profissional na área artística ainda tem muito o que expandir. E muitas das pessoas que se dedicam às artes da cena se formam por meio da lida do dia a dia do fazer teatral e da interlocução com outras(os) artistas, outras áreas, outras cidades. Este é um dos pontos que Euler, por meio de seu trabalho, faz questão de levantar para reforçar a necessidade de olhar para a diversa e rica produção teatral espalhada pelos interiores do país. Nesse sentido, Euler atribui sua formação como dramaturga ao trabalho junto com seu grupo A tua Lona ao longo de 11 anos. Da necessidade de criar obras que caibam e dialoguem com os contextos e inquietações dos quais o grupo se interessa em aprofundar, que começou a escrever dramaturgias. Depois traçou parcerias escrevendo textos para encenações de grupos sergipanos como Cia. de Arte Alese, Dicuri, Caixa Cênica, Boca de Cena, bem como de outros estados como Sociedade T, do Rio Grande do Norte, e o Nuclearte, de Minas Gerais. 

Euler tem um percurso acadêmico na área de Letras e atualmente, em seu doutoramento em Estudos Literários pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), investiga a violência na dramaturgia latino-americana. É dramaturga da Cia. de Teatro da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe e promove oficinas de escrita criativa desde 2016.

No anseio de registrar e compartilhar a sua trajetória com a dramaturgia, e que também acaba por colaborar com a construção e manutenção de um acervo e memória do teatro sergipano, nordestino e brasileiro, publicou os livros 10 afetos (2017) e +10 afetos (2021), que reúnem 20 textos dramatúrgicos. No primeiro livro estão as obras escritas entre 2010 e 2015: O vizinho do 203, O conselho, O vômito, Menina miúda, Ela esteve aqui, Senhora dos restos, Mulheres do Aluá, Prendam Antônia Maria pelo seu crime, Xifópagas e Câncer. O segundo reúne as dramaturgias mais recentes, escritas entre 2016 e 2020: BICHO M, Piedade, a seu dispô, Barulho!, A bordo do coração de pedra, Nunca mais explodimos uma bomba, Vai dar cacho na cabeça do bebê, mainha?, Agora, eu vou viver, Auto da Família Trapo, Para onde voam os pássaros? e Festa para o Fim do mundo. Além dessas publicações das dramaturgias, escreveu e lançou Bolor, em 2017, um livro de prosa poética.

Em 2013 recebeu o Prêmio Jovens Dramaturgos, da Escola Sesc de Ensino Médio, com a obra O conselho, uma história distópica que aborda as situações-limites de competição diante da luta pela sobrevivência humana. Na comemoração de 10 anos da sua companhia A tua Lona, escreveu o monólogo Festa para o fim do mundo, encenado virtualmente pelo ator Cícero Junior, que apresenta uma espécie de manifesto para a liberdade e visibilidade da existência das corpas bichas. É uma reflexão sobre as destruições da humanidade, do meio ambiente e da política, enquanto essas corpas (re)existem sendo dilaceradas diariamente por uma sociedade que opera pelos seus apagamento e na qual “Conservadores Zumbis tomam a terra e ameaçam extinguir a nossa população”. Mas a corpa diz: “Eu vou dançar até acabar. Eu vou dançar até acontecer uma revolução. Eu vou dançar até desmaiar de cansaço ou de sede ou de raiva.”

Euler mergulha nas questões humanas abordando diversas temáticas contemporâneas. Por meio de suas personagens, esmiúça essa profundidade tocando em sentimentos, acontecimentos e sentidos – inclusive aqueles mais animalescos –, que, muitas vezes, preferimos deixar escondidos, abafados, ou que não conseguimos, ou não temos coragem de verbalizar. Fala sobre solidão, sobre corpas, sobre a doença, sobre a morte, sobre violências, sobre identidades, sobre pertencimentos. Algumas obras apresentam uma dose de romantismo, mas é um romantismo crítico, debochado. O que me faz pensar que a escrita de Euler parece transitar na conjunção de uma possível influência imbricada entre o refinado trato da ironia e o aprofundamento psicológico das personagens da escrita de Nelson Rodrigues, com o olhar de repórter do seu tempo para as mazelas da sociedade, as desvirtudes da(o) ser humano e as personagens que, por algum motivo, são marginalizadas socialmente, como na dramaturgia de Plínio Marcos.

No meio do percurso, também experimentou a escrita de dramaturgia para o público infantojuvenil, são elas: Vai dar cacho na cabeça do bebê, mainha?, A bordo do coração de pedra e Para onde voam os pássaros? Na proposta de dialogar com esse público, coloca em questão a diversidade, o amor próprio, o empoderamento de identidades, o meio ambiente, e faz uma crítica à formação com base em uma masculinidade tóxica muitas vezes iniciada na infância.

Sendo também uma estudiosa e profissional da literatura, as palavras são sempre muito bem elegidas e bem ditas dentro uma estrutura que se aproxima do dramático, porém deixando transparecer o seu exercício de experimentação criativa e estética. Como os títulos dos seus livros sugerem, suas obras são como afetos e também des-afetos. E não se trata somente de afeto no seu sentido belo e fraternal, mas no sentido de afetar, de provocar alguma inquietação. Das coisas que a afetam e que, por meio da sua escrita, espera que afete quem lê, quem encena e quem assiste.

Carin Louro

Euler Lopes é dramaturga e professora. Integrante do grupo A tua Lona.

Um mergulho nas entranhas da(o) ser humano, em suas mais plurais e diversas camadas, texturas e significados. Assim podemos nos referir ao trabalho de Euler Lopes. Natural de Aracaju, Sergipe, Euler vem desenvolvendo uma importante trajetória na cena e na dramaturgia em seu estado, sobretudo como alguém que atua na prática e na articulação dos eixos de formação e do pensamento sobre o fazer teatral e a escrita dramatúrgica.

Em Sergipe, como é realidade de muitas localidades no Brasil fora dos grandes centros, a formação profissional na área artística ainda tem muito o que expandir. E muitas das pessoas que se dedicam às artes da cena se formam por meio da lida do dia a dia do fazer teatral e da interlocução com outras(os) artistas, outras áreas, outras cidades. Este é um dos pontos que Euler, por meio de seu trabalho, faz questão de levantar para reforçar a necessidade de olhar para a diversa e rica produção teatral espalhada pelos interiores do país. Nesse sentido, Euler atribui sua formação como dramaturga ao trabalho junto com seu grupo A tua Lona ao longo de 11 anos. Da necessidade de criar obras que caibam e dialoguem com os contextos e inquietações dos quais o grupo se interessa em aprofundar, que começou a escrever dramaturgias. Depois traçou parcerias escrevendo textos para encenações de grupos sergipanos como Cia. de Arte Alese, Dicuri, Caixa Cênica, Boca de Cena, bem como de outros estados como Sociedade T, do Rio Grande do Norte, e o Nuclearte, de Minas Gerais. 

Euler tem um percurso acadêmico na área de Letras e atualmente, em seu doutoramento em Estudos Literários pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), investiga a violência na dramaturgia latino-americana. É dramaturga da Cia. de Teatro da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe e promove oficinas de escrita criativa desde 2016.

No anseio de registrar e compartilhar a sua trajetória com a dramaturgia, e que também acaba por colaborar com a construção e manutenção de um acervo e memória do teatro sergipano, nordestino e brasileiro, publicou os livros 10 afetos (2017) e +10 afetos (2021), que reúnem 20 textos dramatúrgicos. No primeiro livro estão as obras escritas entre 2010 e 2015: O vizinho do 203, O conselho, O vômito, Menina miúda, Ela esteve aqui, Senhora dos restos, Mulheres do Aluá, Prendam Antônia Maria pelo seu crime, Xifópagas e Câncer. O segundo reúne as dramaturgias mais recentes, escritas entre 2016 e 2020: BICHO M, Piedade, a seu dispô, Barulho!, A bordo do coração de pedra, Nunca mais explodimos uma bomba, Vai dar cacho na cabeça do bebê, mainha?, Agora, eu vou viver, Auto da Família Trapo, Para onde voam os pássaros? e Festa para o Fim do mundo. Além dessas publicações das dramaturgias, escreveu e lançou Bolor, em 2017, um livro de prosa poética.

Em 2013 recebeu o Prêmio Jovens Dramaturgos, da Escola Sesc de Ensino Médio, com a obra O conselho, uma história distópica que aborda as situações-limites de competição diante da luta pela sobrevivência humana. Na comemoração de 10 anos da sua companhia A tua Lona, escreveu o monólogo Festa para o fim do mundo, encenado virtualmente pelo ator Cícero Junior, que apresenta uma espécie de manifesto para a liberdade e visibilidade da existência das corpas bichas. É uma reflexão sobre as destruições da humanidade, do meio ambiente e da política, enquanto essas corpas (re)existem sendo dilaceradas diariamente por uma sociedade que opera pelos seus apagamento e na qual “Conservadores Zumbis tomam a terra e ameaçam extinguir a nossa população”. Mas a corpa diz: “Eu vou dançar até acabar. Eu vou dançar até acontecer uma revolução. Eu vou dançar até desmaiar de cansaço ou de sede ou de raiva.”

Euler mergulha nas questões humanas abordando diversas temáticas contemporâneas. Por meio de suas personagens, esmiúça essa profundidade tocando em sentimentos, acontecimentos e sentidos – inclusive aqueles mais animalescos –, que, muitas vezes, preferimos deixar escondidos, abafados, ou que não conseguimos, ou não temos coragem de verbalizar. Fala sobre solidão, sobre corpas, sobre a doença, sobre a morte, sobre violências, sobre identidades, sobre pertencimentos. Algumas obras apresentam uma dose de romantismo, mas é um romantismo crítico, debochado. O que me faz pensar que a escrita de Euler parece transitar na conjunção de uma possível influência imbricada entre o refinado trato da ironia e o aprofundamento psicológico das personagens da escrita de Nelson Rodrigues, com o olhar de repórter do seu tempo para as mazelas da sociedade, as desvirtudes da(o) ser humano e as personagens que, por algum motivo, são marginalizadas socialmente, como na dramaturgia de Plínio Marcos.

No meio do percurso, também experimentou a escrita de dramaturgia para o público infantojuvenil, são elas: Vai dar cacho na cabeça do bebê, mainha?, A bordo do coração de pedra e Para onde voam os pássaros? Na proposta de dialogar com esse público, coloca em questão a diversidade, o amor próprio, o empoderamento de identidades, o meio ambiente, e faz uma crítica à formação com base em uma masculinidade tóxica muitas vezes iniciada na infância.

Sendo também uma estudiosa e profissional da literatura, as palavras são sempre muito bem elegidas e bem ditas dentro uma estrutura que se aproxima do dramático, porém deixando transparecer o seu exercício de experimentação criativa e estética. Como os títulos dos seus livros sugerem, suas obras são como afetos e também des-afetos. E não se trata somente de afeto no seu sentido belo e fraternal, mas no sentido de afetar, de provocar alguma inquietação. Das coisas que a afetam e que, por meio da sua escrita, espera que afete quem lê, quem encena e quem assiste.

Carin Louro

Descrição do ato amoroso: Sozinha me toco. Os dedos deslizam pelos peitos, caem no meu umbigo, acessam minha virilha, encho a mão nas coxas. Toco o que as dobras escondem. Percebo que está lá. Murcho. O tesão sumiu. Desisto de mim.

Tô nua correndo, campo minado colorido, sim, parece um game. Quem aí também perdeu? Corro, tropeço, corro, tropeço. Corro, tropeço. Câmbio, eu estou pedindo socorro, o ano é 2020 e a gente fodeu com tudo, tudo eu disse que fodemos com tudo.

A culpa é minha, a culpa é sua, a culpa é nossa. Morde essa maçã, meu amor!

Falei que fodemos com tudo? Manda uma solução, porra. Cadê os alienígenas que vão resgatar as mais bonitas do pico planeta terra que gongou?

Como robotizar uma pessoa: peça para que ela se cadastre em qualquer benefício do governo enquanto a barriga ronca.

Vrum Vrum. Vrurm Vrum Vruuuuuuuuuuuuum.

(com voz de apresentadora robótica.) Passa papel filme no corpo inteiro, começa pelos pés e vai subindo, usa caixa de ovos nas partes mais frágeis, joelhos, sovacos, olhos e lá na possuidinha, bastante proteção. Tá pronta! uma robótica psicotormentosa no fim do mundinho que rodou, rodou e tá acabando.

(Enquanto se projeta um corpo-mapa, ou um mapa que é corpo.) A lama vai cobrindo tudo, arrastando as cidades, se mesclando aos mares, de repente um boeing papoca num prédio de 350 andares, as pessoas começam a pular lá de cima e, quando chegam no chão, mergulham em larva. Os incêndios povoam as estradas, estilhaços de vidro e silício atingem os corpos dos mais sensíveis. Putrefação no ar, sinto pelas fungadas. Radioatividade queima a pele. Com laser, os pescoços são decapitados, eles copiam sua mente pondo em frasquinhos de geleia de mocotó. Ciclones, furações, ventanias raivosas destroem as residências. Seus amigos escorrem até o esgoto numa massa pastosa. Eu grito Salvação!

Agora não! Eu não estou preparada para a festa acabar.

A festa: Reunimos pessoas. Algumas usam máscaras.
Pierrots e Colombinas duelam pelo meu amor.
Eu quebro o protocolo e desejo o topo do paredão. O Dj grita para eu descer dali ou tudo para. Fico gamada nesse poder de fazer as coisas chegarem ao fim. Lançam garrafas secas. Tiro ao alvo para eu cair. Rebato com os pés, com as mãos. Urro. Sou bicho. Um motor querendo ser feliz.

(Confessional.) A minha felicidade pode matar.

Lista de coisas que me fazem feliz: Oxigênio. Cerveja. Poesia. Caminhar. Gal. Oxigênio. Dinheiro. Sexo. Mãos. Tocar. Fotografias. Vatapá. Oxigênio. (o ator deve incluir coisas à lista.)

(Enquanto dança.) Movimento meus braços como se passasse uma bola de beisebol de uma mão à outra. Os peitos balançam, samba da derrota, calcanhar se segura nos momentos finais, eu vou sucumbir. Eu vou sucumbir. Vocês lembram do jogo? Fechar os olhos e pensar no futuro. Fechem os olhos. O que veem?

(Na tela são projetadas imagens violentas. De guerras, governos ditatoriais, grandes massacres.)

Toda a maldade cabe na palma de uma mão. O homem pode apertar entre os dedos o que há de pior. A mão do homem é a caixa de Pandora, só você que não viu, meu amor. 

(Fala com dificuldade.) Eles chegam. Ouço os passos lentos. Não adianta fugir. Fico quebrada depois de cada visita. Dizem que sou uma testemunha. Haverá cheiro de enxofre. Não entendi. Colocam seus membros sobre a mesa. Tenho vontade de cortá-los com os dentes. Repetem que gosto. Faço com que gozem. Sobre a mesa, a merda do mundo, o leite deles.

Afeminar: Ney Matogrosso e Edson Cordeiro se encontram num palco. Há dois pedestais, um em cada extremidade, e eles cantam. Uma música que tem versos parecidos com Sissy That Walk da Rupaul. Do fundo, em S, Jorge Lafonde surge num vestido de cauda longa, o rosto roça no casaco de pele, joias decoram o seu colo. Olha pra mim e diz: É com você.

(Fragmento de Festa para o fim do mundo)