ave terrena

São Paulo - SP

Ave Terrena é escritora, diretora teatral e coordenadora pedagógica da Escola Livre de Teatro de Santo André.

ouça a entrevista:

Ave Terrena Alves é dramaturga, poeta, diretora e performer. Sua vida artística também tem relação com o ambiente acadêmico e o comprometimento com a formação em dramaturgia. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, ela fez parte da equipe editorial da Revista Cisma, publicação sobre crítica literária e tradução organizada por alunos, entre 2013 e 2015. Atualmente, faz parte da coordenação pedagógica da Escola Livre de Teatro de Santo André. Integrou o Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council em 2014, quando teve oportunidade de publicar sua peça O amor canibal pela editora do SESI. No ano seguinte, passou a fazer parte do grupo de teatro Laboratório de Técnica Dramática (LABTD), no qual desenvolve uma pesquisa sobre memória de violência da ditadura no Brasil.

Fora do circuito teatral de São Paulo, em colaboração com o grupo Frêmito Teatro, de Macapá, na região Norte do Brasil, escreveu a peça Lugar da chuva, com uma abordagem crítica da relação entre humanidade e natureza, considerando as dinâmicas predatórias de ocupação de terras na região amazônica. Em uma experiência de intercâmbio internacional, criou o experimento híbrido Cartas de una travesti brasileña, no V Ciclo de Dramaturgia Escrita e Dirigida por Mulheres da Coordenação Nacional de Teatros do México.

Sua escrita cênica se relaciona com a sua criação na poesia. Seu livro de poemas Segunda queda (editora Kazuá, 2018) foi levado à cena em um espetáculo poético-musical. Quando aborda personagens trans, a artista escreve com termos do pajubá, dialeto inspirado em línguas africanas e indígenas, usado como comunicação cifrada entre travestis, posteriormente assimilado por outras camadas da comunidade LGBTQIA+. A autora também faz referência ao conceito de oralitura, elaborado por Leda Maria Martins.

Um dos dados mais significativos da sua produção dramatúrgica é a pesquisa histórica continuada sobre os crimes da ditadura militar no Brasil e na América Latina, com a consequente elaboração poética sobre os efeitos e as continuidades das políticas públicas de opressão às subjetividades dissidentes. Nesta investigação, Ave trabalha com as ideias de história oral e de dramaturgia muralista, em referência à proposta do escritor modernista Oswald de Andrade em relação com o muralismo mexicano dos anos 1930 e sua justaposição de temporalidades. A proposta muralista supõe que a dramaturgia ofereça diferentes olhares diante de uma determinada realidade. Cada peça apresenta fios narrativos desse grande mural, formando um painel de histórias e proposições entrelaçadas, designadas nos textos como “barbantes” de diferentes cores.

O corpo que o rio levou (editora Giostri, 2017), por exemplo, apresenta os barbantes verde e amarelo. O projeto estreou na capital paulista e fez apresentações em assentamentos e ocupações de movimentos de luta por terra e moradia. A montagem do LABTD se dedica a pensar os afetos impressos pela história de violência no país a partir dos relatórios da Comissão Nacional da Verdade. Os dois barbantes representam os dois fios condutores da trama: enquanto a protagonista, uma atriz em início de carreira no Brasil dos anos 1960, ensaia uma peça dirigida por um artista estrangeiro, seu marido é perseguido, torturado e assassinado.

As 3 uiaras de SP City (2018), uma das peças ganhadoras do IV Edital de Dramaturgia da Mostra de Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo (CCSP), tem o subtítulo “barbante roxo do Mural da Memória”. Aqui, a pesquisa se concentra nas políticas públicas de extermínio da população de mulheres trans e travestis durante a ditadura. A criação da peça contou com a colaboração da ativista Neon Cunha, que compartilhou com o grupo a memória da experiência de uma das operações policiais que vivenciou. As duas personagens protagonistas são travestis perseguidas pela polícia, inclusive pelo policial que se relaciona com elas, que se deparam com a possibilidade de receber ajuda de mulheres cis. A complexidade das diferenças sociais entre mulheres trans e cis, negras e brancas, marginalizadas ou com privilégios de classe é uma das questões que vem à tona nos conflitos da peça. É importante apontar a presença das canções como parte da dramaturgia, o endereçamento direto ao público e a afirmação de uma linguagem escrita que é insubordinada à norma culta.

Uma rubrica da peça é exemplar para que se compreenda a proposição do movimento das artistas trans no momento que a peça foi escrita, advertindo artistas cis contra a prática do transfake – que ocorre quando uma pessoa cis faz uma personagem trans. O texto diz: “As personagens Miella e Cínthia devem ser interpretadas por atrizes travestis / mulheres trans, pelo menos até o ano de 2047”. A proposta é que a classe teatral se conscientize da importância de dar oportunidade de trabalho para artistas trans, e que, por um período de 30 anos, deixe de se apropriar das narrativas trans e de se valer da temática da transgeneridade em prol do próprio sucesso – comovendo plateias e exibindo virtuosismos –, enquanto pessoas trans têm dificuldades para conseguir trabalho remunerado no campo das artes.

O mural da memória ganhou mais alguns barbantes em 2021, com outras duas criações que dão continuidade à pesquisa. As mulheres dos cabelos prateados, que tem o subtítulo “peça épica alienígena e transpofágica em nove quadros”, traz à cena histórias de mulheres que não tinham relação com a luta armada, mas eram vulneráveis por suas condições sociais. Transpofagia é um conceito de elaboração recente, que se relaciona com a ideia modernista de antropofagia, mas a partir das questões de gênero. O termo ficou mais conhecido no teatro brasileiro a partir da peça Manifesto Transpofágico, de Renata Carvalho. A trama da peça de Ave Terrena flerta com a ficção científica para criar o dispositivo de um olhar externo. A linguagem, no caso desse texto, se alterna entre a fala corrida da prosa e a métrica musicada da poesia. A dramaturgia, que abre espaço para a delicadeza apesar da virulência dos fatos denunciados, homenageia a mulher cis lésbica Cassandra Rios, a escritora mais censurada pela ditadura militar, devido ao conteúdo erótico dos seus livros.

Em E lá fora o silêncio, barbante vermelho, a elaboração poética sobre fatos históricos ganha ainda outros contornos. Tendo a apresentação de um projeto de cinema em um pitching como dispositivo ficcional de apresentação de histórias reais, a peça recria narrativas compartilhando um procedimento de troca de cartas cifradas. A dramaturgia foi articulada a partir de entrevistas de história oral, conversas com pesquisadores, registros documentais e obras do cinema e da literatura sobre o período em questão. Entre as referências para a criação, está o livro A queda para o alto, relato autobiográfico do poeta Anderson Herzer, que inspirou a história de um dos personagens centrais.

É possível perceber que cada barbante, além de representar uma narrativa, também mergulha em uma linguagem ou dispositivo dramatúrgico para articular ficção, história, cena e militância. O mural da memória de Ave Terrena Alves e do LABTD não é meramente temático, mas sobretudo poético, um mosaico de linguagens, vocabulários, prosódias e performatividades.

Daniele Avila Small

Ave Terrena é escritora, diretora teatral e coordenadora pedagógica da Escola Livre de Teatro de Santo André.

Ave Terrena Alves é dramaturga, poeta, diretora e performer. Sua vida artística também tem relação com o ambiente acadêmico e o comprometimento com a formação em dramaturgia. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, ela fez parte da equipe editorial da Revista Cisma, publicação sobre crítica literária e tradução organizada por alunos, entre 2013 e 2015. Atualmente, faz parte da coordenação pedagógica da Escola Livre de Teatro de Santo André. Integrou o Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council em 2014, quando teve oportunidade de publicar sua peça O amor canibal pela editora do SESI. No ano seguinte, passou a fazer parte do grupo de teatro Laboratório de Técnica Dramática (LABTD), no qual desenvolve uma pesquisa sobre memória de violência da ditadura no Brasil.

Fora do circuito teatral de São Paulo, em colaboração com o grupo Frêmito Teatro, de Macapá, na região Norte do Brasil, escreveu a peça Lugar da chuva, com uma abordagem crítica da relação entre humanidade e natureza, considerando as dinâmicas predatórias de ocupação de terras na região amazônica. Em uma experiência de intercâmbio internacional, criou o experimento híbrido Cartas de una travesti brasileña, no V Ciclo de Dramaturgia Escrita e Dirigida por Mulheres da Coordenação Nacional de Teatros do México.

Sua escrita cênica se relaciona com a sua criação na poesia. Seu livro de poemas Segunda queda (editora Kazuá, 2018) foi levado à cena em um espetáculo poético-musical. Quando aborda personagens trans, a artista escreve com termos do pajubá, dialeto inspirado em línguas africanas e indígenas, usado como comunicação cifrada entre travestis, posteriormente assimilado por outras camadas da comunidade LGBTQIA+. A autora também faz referência ao conceito de oralitura, elaborado por Leda Maria Martins.

Um dos dados mais significativos da sua produção dramatúrgica é a pesquisa histórica continuada sobre os crimes da ditadura militar no Brasil e na América Latina, com a consequente elaboração poética sobre os efeitos e as continuidades das políticas públicas de opressão às subjetividades dissidentes. Nesta investigação, Ave trabalha com as ideias de história oral e de dramaturgia muralista, em referência à proposta do escritor modernista Oswald de Andrade em relação com o muralismo mexicano dos anos 1930 e sua justaposição de temporalidades. A proposta muralista supõe que a dramaturgia ofereça diferentes olhares diante de uma determinada realidade. Cada peça apresenta fios narrativos desse grande mural, formando um painel de histórias e proposições entrelaçadas, designadas nos textos como “barbantes” de diferentes cores.

O corpo que o rio levou (editora Giostri, 2017), por exemplo, apresenta os barbantes verde e amarelo. O projeto estreou na capital paulista e fez apresentações em assentamentos e ocupações de movimentos de luta por terra e moradia. A montagem do LABTD se dedica a pensar os afetos impressos pela história de violência no país a partir dos relatórios da Comissão Nacional da Verdade. Os dois barbantes representam os dois fios condutores da trama: enquanto a protagonista, uma atriz em início de carreira no Brasil dos anos 1960, ensaia uma peça dirigida por um artista estrangeiro, seu marido é perseguido, torturado e assassinado.

As 3 uiaras de SP City (2018), uma das peças ganhadoras do IV Edital de Dramaturgia da Mostra de Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo (CCSP), tem o subtítulo “barbante roxo do Mural da Memória”. Aqui, a pesquisa se concentra nas políticas públicas de extermínio da população de mulheres trans e travestis durante a ditadura. A criação da peça contou com a colaboração da ativista Neon Cunha, que compartilhou com o grupo a memória da experiência de uma das operações policiais que vivenciou. As duas personagens protagonistas são travestis perseguidas pela polícia, inclusive pelo policial que se relaciona com elas, que se deparam com a possibilidade de receber ajuda de mulheres cis. A complexidade das diferenças sociais entre mulheres trans e cis, negras e brancas, marginalizadas ou com privilégios de classe é uma das questões que vem à tona nos conflitos da peça. É importante apontar a presença das canções como parte da dramaturgia, o endereçamento direto ao público e a afirmação de uma linguagem escrita que é insubordinada à norma culta.

Uma rubrica da peça é exemplar para que se compreenda a proposição do movimento das artistas trans no momento que a peça foi escrita, advertindo artistas cis contra a prática do transfake – que ocorre quando uma pessoa cis faz uma personagem trans. O texto diz: “As personagens Miella e Cínthia devem ser interpretadas por atrizes travestis / mulheres trans, pelo menos até o ano de 2047”. A proposta é que a classe teatral se conscientize da importância de dar oportunidade de trabalho para artistas trans, e que, por um período de 30 anos, deixe de se apropriar das narrativas trans e de se valer da temática da transgeneridade em prol do próprio sucesso – comovendo plateias e exibindo virtuosismos –, enquanto pessoas trans têm dificuldades para conseguir trabalho remunerado no campo das artes.

O mural da memória ganhou mais alguns barbantes em 2021, com outras duas criações que dão continuidade à pesquisa. As mulheres dos cabelos prateados, que tem o subtítulo “peça épica alienígena e transpofágica em nove quadros”, traz à cena histórias de mulheres que não tinham relação com a luta armada, mas eram vulneráveis por suas condições sociais. Transpofagia é um conceito de elaboração recente, que se relaciona com a ideia modernista de antropofagia, mas a partir das questões de gênero. O termo ficou mais conhecido no teatro brasileiro a partir da peça Manifesto Transpofágico, de Renata Carvalho. A trama da peça de Ave Terrena flerta com a ficção científica para criar o dispositivo de um olhar externo. A linguagem, no caso desse texto, se alterna entre a fala corrida da prosa e a métrica musicada da poesia. A dramaturgia, que abre espaço para a delicadeza apesar da virulência dos fatos denunciados, homenageia a mulher cis lésbica Cassandra Rios, a escritora mais censurada pela ditadura militar, devido ao conteúdo erótico dos seus livros.

Em E lá fora o silêncio, barbante vermelho, a elaboração poética sobre fatos históricos ganha ainda outros contornos. Tendo a apresentação de um projeto de cinema em um pitching como dispositivo ficcional de apresentação de histórias reais, a peça recria narrativas compartilhando um procedimento de troca de cartas cifradas. A dramaturgia foi articulada a partir de entrevistas de história oral, conversas com pesquisadores, registros documentais e obras do cinema e da literatura sobre o período em questão. Entre as referências para a criação, está o livro A queda para o alto, relato autobiográfico do poeta Anderson Herzer, que inspirou a história de um dos personagens centrais.

É possível perceber que cada barbante, além de representar uma narrativa, também mergulha em uma linguagem ou dispositivo dramatúrgico para articular ficção, história, cena e militância. O mural da memória de Ave Terrena Alves e do LABTD não é meramente temático, mas sobretudo poético, um mosaico de linguagens, vocabulários, prosódias e performatividades.

Daniele Avila Small

QUADRO 2:

ECLODE UMA REBELIÃO DE MULHERES TERRÁQUEAS DANÇANDO
[Márcie e outras mulheres iniciam uma dança que parece festiva, mas é de guerra]

Márcie:
Caríssimo público a nos observar perplexo
Escutem agora o motivo de nosso confronto
Dançar neste espaço também é um gesto
Pela memória dos mortos e desaparecidos
Profundos abismos da Ditadura
É nosso direito restituir

Zarka:
Um fenômeno intrigante
Mulheres desconhecidas em passo consonante
Dançando com ferocidade e delicadeza
Em calçadas, na entrada de prédios, templos, farmácias, delegacias
Obstruindo a passagem das outras, se desviando
Em cima dos bancos e fontes de água em praças públicas
Pra nós, um total mistério
Por isso vamos entrar em seus pensamentos
E narrá-los em primeira mão para as queridas ouvintes

Márcie:
[na Telepatia dos cabelos prateados]
Minha mãe é meu herói
Demorou pra ela ter nome
Até os dez anos de idade eu era sem nome

E desconhecia que outras mães e pais
Tinham nome e sobrenome pessoais
E sempre explicaram objetivamente tudo
Se a polícia chegasse a gente saía correndo

Mas não me foi difícil
Ser criança e feliz
Brincar só pertinho de casa
Pra ninguém me descobrir
Se eu ia um pouco mais longe
Vinha o vento e me soprava de volta
Pra perto do meu pai e dos meus irmãos
O vento era quem me fazia a escolta

Quando minha mãe vinha
Sempre de três em três dias
Em sacolas coloridas trazia
Um monte de pacote enrolado
Que eu jamais poderia encostar
Se acaso eu chegasse perto
Já sentia o vento a soprar

Às vezes outros adultos vinham
As luzes se apagavam
Quando isso acontecia
Alguns ficavam deitados no chão
Esperando a hora de se levantar
As palavras desapareciam nesses dias

Márcie:
[para o público]
Há décadas o governo nos deve explicações
Algumas famílias não têm nem certidão de óbito
Nossa infância foi roubada, e com ela a inocência
Em nenhum momento nós provocamos uma situação
Que justificasse uma violência da qual nós fomos vítimas
A violência de Estado

Essa palavra vítima infelizmente é uma coisa que se repete
Quando a gente vitimiza o ser humano
É quando a gente não deixa que ele se expresse
Esse país se diz uma democracia
Mas as pessoas continuam sendo decepadas
Os desaparecidos continuam desaparecidos
Os arquivos continuam fechados
Nós não sabemos onde nossos familiares foram parar
E queremos e exigimos uma resposta pra isso
Nós queremos enterrar os nossos mortos
É um direito que nós temos como seres humanos

Zarka:
Sinais de interferência
Na vertigem da memória
Curiosos movimentos
De quem dança por fora
E parece lembrar por dentro

(Fragmento de
As mulheres dos cabelos prateados)