rhamon matarazzo

Fortaleza - CE

Rhamon Matarazzo é escritor, ator, diretor, arte-educador e produtor teatral.

ouça a entrevista:

Rhamon Matarazzo é ator, dramaturgo e arte-educador. Desenvolve sua trajetória de modo independente com a produção de espetáculos que traçam narrativas pandêmicas e pós-pandêmicas em Fortaleza, Ceará. Licenciado em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e em Teatro pelo Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará, investiga, atualmente, arte e Aids no curso de especialização em Arte Educação e Docência no Ensino Superior, pela Faculdade Venda Nova do Imigrante.

Desde 2009, quando diagnosticado soropositivo, pesquisa os tensionamentos das linguagens poéticas e biomédicas por meio de dispositivos da dramaturgia contemporânea, de maneira a pensar a localização social de seu corpo indetectável infectado pelo HIV e a não visibilidade das existências de corpos dissidentes. Em 2019 recebeu da Câmara Municipal de Vereadores de Fortaleza a Comenda por desenvolver através das artes cênicas o trabalho de Responsabilidade Social e Solidariedade Humana.

Começou a se relacionar com a dramaturgia aos 19 anos. A escrita de Rhamon quase sempre está atrelada à criação cênica e à proposta de construção de narrativas que dialoguem e provoquem reflexões sobre HIV/AIDS e, mais recentemente, sobre a Covid-19. Dentre as suas obras, destacam-se os monólogos, também interpretados por ele: Lázaro (2017), Corpo dócil (2019) e Paroxítona (2021). 

Fruto do seu trabalho de conclusão do curso de  licenciatura em Teatro, escreveu Lázaro, com inspiração na atmosfera da obra Eu não, de Beckett, que trata do silenciamento e do apagamento das pessoas soropositivas. Um monólogo sobre o tempo de vida que existe entre o diagnóstico e a aceitação individual e dos outros, e sobre como a sociedade ainda desconhece ou não sabe lidar com a existência desses corpos dissidentes. A obra representa um marco de abertura na sua trajetória para a atuação como artevista.

Paroxítona é uma obra pensada e criada para o contexto da virtualidade no qual fomos inseridos desde 2020. A partir do significado de paroxítona, que é uma palavra que tem a penúltima sílaba tônica, aquela que é pronunciada com mais força, Rhamon constrói um texto que opera como um roteiro com o uso de palavras paroxítonas como metáforas para as problemáticas tônicas da atualidade. Palavras como ge-no--dio, gri-pe-zi-nha e clo-ro-qui-na reverberam como protesto sobre o descaso das instâncias governamentais brasileiras durante o período da pandemia. E as inúmeras pautas, que precisavam ser tônicas, acabam sendo átonas [pronunciadas com menos intensidade], como a homofobia, a transfobia, o racismo, a violência contra a mulher etc. Na encenação, feita ao vivo pelo Youtube, Rhamon abre para o público continuar a lista, acrescentando mais palavras-questões. Trata-se de uma pesquisa de experimentação de escrita na intersecção entre teatro e audiovisual.

Em 2022, lança o livro Rhamon com H, no qual compartilha suas vivências e seu percurso da infância aos dias atuais, passando pelos momentos de diagnóstico e pelos estigmas sociais enfrentados por ele, de modo a desdobrar em uma espécie de libertação de poder falar sobre a sua condição sorológica na vida e nos palcos. Nesse sentido, a sua obra opera e se empodera como forma de artevismo. Sua vida se encontra com a arte e com a militância, e daí reverbera para muitas outras pessoas.

O engajamento na trajetória de Rhamon Matarazzo reforça a importância do teatro na relação arte e vida, arte e política, arte e saúde. A partir da fricção entre suas vivências e uma autoficção, instaura possibilidades de se conectar com o público por meio das narrativas desses corpos que buscam afirmar seus pertencimentos e (re)existências em meio às suas diferenças e subjetividades. E mais, longe de ser puramente didático, sua escrita escancara a necessidade de conscientização de uma epidemia ainda não extinta e a atenção para os seus pré-conceitos, e das demais questões sociais e políticas urgentes que precisam estar e continuar em pauta nos teatros e na vida.

Carin Louro

Rhamon Matarazzo é escritor, ator, diretor, arte-educador e produtor teatral.

Rhamon Matarazzo é ator, dramaturgo e arte-educador. Desenvolve sua trajetória de modo independente com a produção de espetáculos que traçam narrativas pandêmicas e pós-pandêmicas em Fortaleza, Ceará. Licenciado em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e em Teatro pelo Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará, investiga, atualmente, arte e Aids no curso de especialização em Arte Educação e Docência no Ensino Superior, pela Faculdade Venda Nova do Imigrante.

Desde 2009, quando diagnosticado soropositivo, pesquisa os tensionamentos das linguagens poéticas e biomédicas por meio de dispositivos da dramaturgia contemporânea, de maneira a pensar a localização social de seu corpo indetectável infectado pelo HIV e a não visibilidade das existências de corpos dissidentes. Em 2019 recebeu da Câmara Municipal de Vereadores de Fortaleza a Comenda por desenvolver através das artes cênicas o trabalho de Responsabilidade Social e Solidariedade Humana.

Começou a se relacionar com a dramaturgia aos 19 anos. A escrita de Rhamon quase sempre está atrelada à criação cênica e à proposta de construção de narrativas que dialoguem e provoquem reflexões sobre HIV/AIDS e, mais recentemente, sobre a Covid-19. Dentre as suas obras, destacam-se os monólogos, também interpretados por ele: Lázaro (2017), Corpo dócil (2019) e Paroxítona (2021). 

Fruto do seu trabalho de conclusão do curso de  licenciatura em Teatro, escreveu Lázaro, com inspiração na atmosfera da obra Eu não, de Beckett, que trata do silenciamento e do apagamento das pessoas soropositivas. Um monólogo sobre o tempo de vida que existe entre o diagnóstico e a aceitação individual e dos outros, e sobre como a sociedade ainda desconhece ou não sabe lidar com a existência desses corpos dissidentes. A obra representa um marco de abertura na sua trajetória para a atuação como artevista.

Paroxítona é uma obra pensada e criada para o contexto da virtualidade no qual fomos inseridos desde 2020. A partir do significado de paroxítona, que é uma palavra que tem a penúltima sílaba tônica, aquela que é pronunciada com mais força, Rhamon constrói um texto que opera como um roteiro com o uso de palavras paroxítonas como metáforas para as problemáticas tônicas da atualidade. Palavras como ge-no--dio, gri-pe-zi-nha e clo-ro-qui-na reverberam como protesto sobre o descaso das instâncias governamentais brasileiras durante o período da pandemia. E as inúmeras pautas, que precisavam ser tônicas, acabam sendo átonas [pronunciadas com menos intensidade], como a homofobia, a transfobia, o racismo, a violência contra a mulher etc. Na encenação, feita ao vivo pelo Youtube, Rhamon abre para o público continuar a lista, acrescentando mais palavras-questões. Trata-se de uma pesquisa de experimentação de escrita na intersecção entre teatro e audiovisual.

Em 2022, lança o livro Rhamon com H, no qual compartilha suas vivências e seu percurso da infância aos dias atuais, passando pelos momentos de diagnóstico e pelos estigmas sociais enfrentados por ele, de modo a desdobrar em uma espécie de libertação de poder falar sobre a sua condição sorológica na vida e nos palcos. Nesse sentido, a sua obra opera e se empodera como forma de artevismo. Sua vida se encontra com a arte e com a militância, e daí reverbera para muitas outras pessoas.

O engajamento na trajetória de Rhamon Matarazzo reforça a importância do teatro na relação arte e vida, arte e política, arte e saúde. A partir da fricção entre suas vivências e uma autoficção, instaura possibilidades de se conectar com o público por meio das narrativas desses corpos que buscam afirmar seus pertencimentos e (re)existências em meio às suas diferenças e subjetividades. E mais, longe de ser puramente didático, sua escrita escancara a necessidade de conscientização de uma epidemia ainda não extinta e a atenção para os seus pré-conceitos, e das demais questões sociais e políticas urgentes que precisam estar e continuar em pauta nos teatros e na vida.

Carin Louro

Talvez ele não soubesse que estava em cima da cama de um hospital, entubado, morrendo de aids em 1995, meses antes da chegada dos antirretrovirais. Imagine... a posição em que estava... se de pé ou sentado, ou deitado. Mas o cérebro ainda, ainda, mas o cérebro ainda, ainda. Porque o seu primeiro pensamento foi... educado como ele, foi acreditar com os outros desinformados num Deus capital misericordioso... (risos) Foi sua mãe apelar a todas as religiões para que ele se curasse.

Algo havia, algo havia, pois algo aconteceu... 

O seu primeiro pensamento foi... que estava a ser castigado porque dava o cu e chupava piroca. Os termos são esses... todo termo é válido quando se pode entender... ainda que esta boca seja considerada imunda por mentes obscuras que mantém suas opiniões guardadas a sete chaves dentro de um cofre podre. Alguns pensamentos passaram pela sua cabeça... estava sendo castigado pelos seus pecados. Alguns pensamentos passaram pela sua cabeça... um atrás do outro... depois esse pensamento se dissipou... quando ele subitamente percebeu... gradualmente percebeu... que ele não estava sofrendo... imaginem... não estava sofrendo. Na verdade, não conseguia se lembrar em sua vida quando é que tinha sofrido menos...

A não ser que estivesse destinado a sofrer... enquanto isso, gays nas ruas de Nova York lutavam para que os malditos laboratórios soltassem uma cura... para sobreviver em um mundo onde ele teria que se esconder por um simples vírus no sangue... pensamento atrasado... pensamento atrasado... mana, ela tem a tia... ora, mas que coisa mais IDIOTAAA!!! Essa é a melhor forma que as pessoas mais cruéis encontram para disseminar suas doenças mentais, suas impurezas espirituais no lodo da ignorância criada por governos que AMAM, AMAM tudo isso.

Fadado a sofrer, tal como já outras vezes da sua vida, quando claramente preparado para ter prazer, ele acabara por não ter prazer nenhum...

Castigo, castigo... vinha de novo da sua mente ainda confusa... por alguma ou outra razão de pecado... sua mente estava colonizada.

Educado como fora a acreditar como os outros desinformados extraviados que aquilo se pegava no ar, nos talheres, nos copos... a vizinha... a vizinha... casada... casada... CASADA... Quando indagada por ele se ela poderia lhe dar um copo de água, pois ele havia perdido a chave de casa, tinha tanto medo de pegar aquilo que após ele beber a água em seu copo o lançou contra a parede e ainda por cima lavou as mãos com água sanitária, em seguida aqueceu as mesmas mãos na boca do fogão (hummmmmmmmmmmmm).

Educada como fora a acreditar com os outros desinformados extraviados a acreditar... num Deus capital... misericordioso (risos).

O seu primeiro pensamento foi... ridículo... talvez não fosse tão ridículo assim... pois, afinal de contas...

Mas a MÁQUINA, mas provavelmente a MÁQUINA, tão desligada, o agrediu nos jornais quando ele assumiu que já estava doente de aids.

Sem ser capaz de reagir, pois já se sentia entorpecido, não conseguia mais emitir aquele som.... A enfermeira mal remunerada do Brasil pegou seu braço magro para recolher seu sangue e em seguida lhe colocar um soro com nutrientes em sua veia, e dizia... Abre e fecha a mão... criatura desprezível… se meu sobrinho morreu em três meses, no estado em que tu te encontras só dura o tempo de uma borboleta.

Ele já não ligava para tanta falta de respeito. Ele silenciava porque no fundo ele tinha uma fé, nele mesmo, inabalável de que em algum momento aquele corpo iria reagir.

Um grito saía de sua cabeça pedindo ajuda. Tudo silencioso.

Sua vizinha... infelizmente havia falecido... ela ficou acamada em casa... os médicos vinham e não podiam acreditar... Ela também estava infectada com o vírus... ela gritava e gritava desesperada... eu peguei em um copo d'água.

Eu tive misericórdia e minha paga foi essa....

Mal sabia ela que seu marido desaparecido há meses a tinha infectado. Sim, minha senhora... seu marido a infectou e pode lhe infectar.

O erro médico foi realizar todos os exames possíveis sem cogitar o agravamento de um HIV, pois ela era uma senhora distinta e casada. Pois que sirva de exemplo... se fosse o primeiro exame, ela estaria a fofocar com as outras vizinhas até hoje... ou quem sabe fosse uma ativista dos direitos dos positivos.

A congregação na época disse que o uso da camisinha era imoral...

Educada como fora, com os outros desinformados extraviados, a acreditar... num Deus capital... misericordioso (risos).

Eu peguei num copo d ́água. Foram suas últimas palavras antes do choque séptico.

De repente ouviu uma voz... e olhava para todos os lados e não via ninguém... de repente percebeu que estava se mexendo... e que aquela voz não podia ser outra a não ser a sua própria voz...

Afinal, sua mãe trabalhava em um ritmo alucinante para pagar o melhor hospital para ele. Nada era de graça.

Era um tempo de extrema consciência. Nada poderia ser gasto com futilidades.

Ele saiu do quarto e as pessoas olhavam fixamente com um ar de incompreensão. Ele que foi praticamente sem voz toda a sua vida... ele sobreviveu ali e dizia... eu quero um copo de água... ele esperaria o tempo que fosse preciso... ali, no meio da multidão que morria de cólera, cólera, CÓLERA.

Ele caiu e de repente sentiu sua boca ser violada por um pano molhado com água. Era a enfermeira dos diabos que estava a se impressionar e a lhe dizer... tu és a bactéria mais resistente que existe aqui entre todas nós.

Na madrugada, ele delirava... era todo aquele fluxo de gente que passava pela porta do quarto... não tinha nenhuma ideia do que estava a dizer...

Mas ele havia conseguido, ou estava quase a conseguir, estava quase a conseguir depois de demorados esforços.

E subitamente se percebeu, gradualmente se percebeu, os lábios a mexer...

Uma guerra silenciosa a matar milhões.
Somos 72 milhões, doutora.
Somos 72 milhões, doutora.
Somos 72 milhões, doutora.
Idosos, crianças, homens, mulheres, negros, brancos, homo, héteros, grávidas e não grávidas. E tantos outros e tantos outros e tantos outros...

sem parar, sem parar, sem parar, a cada 17 segundos chega mais um. mais um...
um
dois
três
quatro
cinco
seis
sete
oito
nove
dez
onze
doze
treze
quatorze
quinze
dezesseis
dezessete
Sejam bem-vindos
O cérebro dele entrou em delírio

(Fragmento de Lázaro)